sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pra quem acha que falar muito de Deus é ser espiritual


Desconfio de que aqueles que MAIS FALAM SOBRE DEUS, que mais estudam sobre Deus, que mais pensam sobre Deus, são os que menos acreditam em Deus, os que menos “experimentam” Deus, os que menos “sentem” Deus.
Daí a necessidade de falar tanto sobre Deus, de pensar tanto sobre Deus, de estudar tanto sobre Deus: no fim, são como asmáticos que menos dispõem de Ar para respirar, e que, por isso, são os que se ocupam (gastam) grande parte do tempo, da vida, racionalizando sobre Deus.
Nesse sentido, é preferível para qualquer religioso ouvir os poetas do que os pastores, teólogos, padres, pois tenho a nítida sensação, de que os que mais “experimentam” Deus, são os que menos consegue explicar, sistematizar, teologizar sobre Deus.
O Deus dos poetas, ao contrário dos teólogos e religiosos, não cabe em caixa “conceituais”, definidoras e limitadoras do “objeto” de estudo e culto chamado “Deus”.
Os poetas, eles sim é que são sábios, pois sabem que Deus não pode ser capturado por nossas “correntes” de palavras. Não, o Deus dos poetas, dos místicos transcende qualquer abstração, racionalização.
Grande parte da “morte” de Deus, passa pelos próprios religiosos: ao tentar racionalizar a experiência “irracionalizável”, teologizar o mistério, compreender o absurdo - em outras palavras, capturar o “vento” - caíram na armadilha moderna, pós iluminista, de eleger a razão, o novo senhor e rei absoluto da vida humana, agora também, da religiosa.
Pobres dos religiosos que acabaram “matando” e “enterrando” “Deus”: agora, não passa de um mero “objeto” de museu, de um mero “objeto” decorativo, totalmente desnecessário, pois nivelou “Deus” a categoria de passivo a racionalização humana, esquecendo, que os humanos modernos, não precisam mais Deus, pois eles agora tem como “senhor e salvador” de suas vidas, a Razão, colocando ela acima até do próprio Deus.

Como tornar sua leitura significativa?


Busco ser extremamente criterioso nas minha leituras. Não leio de qualquer jeito, qualquer coisa. Sou bastante seletivo, pois sei que não disponho de todo o tempo que gostaria que tivesse, por isso, meu rigor na hora de escolher um livro para ler.
Leio seguindo alguns princípios que pra mim são "sagrados" e fazem toda diferença, "pesando" no momento da escolha, pois para cada livro escolhido, milhares de outras leituras são descartadas.
Primeiro, minha regra de "ouro": somente leio o que me toca, o que me interessa, o que aguça minha curiosidade, o que me desperta o tesão de ler.
Segundo, e não menos importante: leio buscando prazer na própria leitura e/ou conhecimento, seja por me proporcionar prazer e alegria direta e imediatamente, como uma leitura com fim em si mesmo, e/ou por gerar conhecimento.
Abro um "parênteses" aqui: toda leitura de um livro, pra que eu disponha-me a ler, tem que, ou me gerar grande alegria por sua leitura com ou sem conhecimento, ou me gerar conhecimento com ou sem "prazer".
Terceiro, uso um simples, mas fundamental critério: tento ler - já faz um bom tempo - ao menos um grande clássico de cada autor.
Se caso gostar muito da escrita e do conteúdo de um determinado autor, procuro ler outros diversos livros do mesmo autor - foi assim que acabei lendo cinco livros na sequência de Shakespeare, sete livros do meu filosofo favorito Nietzsche.
Quarto, para não correr o risco de cansar-me, alterno entre uma leitura de literatura com uma mais reflexiva, no sentido de filosófica e/ou psicológica - atualmente, tenho lido dois livros paralelamente, sendo, sempre, um de literatura (romance) e outro, mais reflexivo, acadêmico, mais teórico por assim dizer.
Assim, tenho maior possibilidade de desfrutar e absolver dois livros ao mesmo tempo, pois ambos são de diferentes estilos, objetivos, formas, gêneros, linguagem e saberes.
Talvez, se optasse por ler dois livros com a mesma "essência", poderia causar algum tipo de confusão, canseira ou pouco conhecimento, pois imagine ler, Kant e Lacan juntos: ambos "osso" duro de roer.
Enfim, como gasto em média, de três à quatro horas por dia, em leituras - "pouco" tempo, diria, pra alguém (eu) que tem uma fila incalculável de livros para ler - não me dou o luxo (não mesmo) de desperdiçar meu tempo - que só "vale" minha vida, só isso, porque a vida é feita de tempo - lendo qualquer coisa que vejo pela frente.

Quer mesmo saber quem é você?


Acredito que você, alguma vez já se perguntou “QUEM SOU EU?”. Claro que sabemos que a resposta a pergunta “quem sou eu?”, está, grandemente ligada, em parte, a nossa identidade.
Mas qual é a base da nossa identidade? Pois se a vida é uma constante mudança, ou como diz Raul Seixas em uma das suas canções, que ele preferia ser “uma Metamorfose ambulante”, como podemos acreditar que temos uma identidade? – uma vez que identidade pressupõe algo “fixo”, “identificável”, que é "permanente".
O filósofo Heráclito já dizia que não podemos atravessar o mesmo rio duas vezes, pois nem nós somos o mesmo de antes (que atravessou), e nem às águas do rio são as mesmas (atravessadas por nós).
De fato, vivemos sempre sendo transformados: seja fisicamente – internamente às nossas células vão se renovando diariamente, como externamente, nosso corpo vai envelhecendo; seja psicológica e emocionalmente – somos afetados por um mundo repleto de acontecimentos, como vamos amadurecendo ao longo da vida; seja relacionalmente – vamos sempre ser influenciados pela fala (carregada de valores, significados) das pessoas ao nosso redor; seja tecnologicamente – através das redes sociais, da televisão, internet; seja por livros – nosso repertório verbal (incluindo crenças) e intelectual depende (e muito) do que lemos; enfim, de uma infinidade de coisas.
Sendo assim, como podemos ter certeza de sermos nós mesmos e não uma mera ilusão de que somos nós mesmos? Tenho alguns “palpites” para compartilhar.
Primeiro, graças à nossa memória, de podermos revisitar a qualquer momento nossa história. Ou seja, podemos acessar, recorrendo sempre a nossa própria história de vida, como um testemunho “verdadeiro” de nós – nosso passado “fala” por nós.
Segundo, graças às narrativas: as que contamos de nós - às histórias da nossa vida que compartilhamos; as que contam de nós - aquelas histórias que as pessoas falam de nós para os outros; por nós - como somos apresentados; e pra nós - as coisas que falavam (e falam) de nós pra nós.
Explico melhor: a narrativa é um recurso que dispomos, para dar coesão a nossa história, pois através dela, podemos dar uma linearidade a nossa vida, organizando a mesma através de histórias narradas. E isto, não só relatadas por nós, mas também pelas pessoas que nos são mais próximas.
Elas dão testemunho, contando eventos que são, às vezes, coerente com nossa própria narrativa, outras vezes, contraditório. Ou seja, as pessoas podem tanto validarem nossas histórias, como contradizer.
Talvez por isso, Jesus tenha nos evangelhos perguntado aos seus discípulos “o que dizem (o que falam, contam) quem eu sou?”, pois o que contamos uns dos outros é em parte, definidor de nós mesmos.
Terceiro, às relações sociais, nas quais estamos inseridos, que fazemos parte, são de certa forma, definidoras de nossa identidade – por isso diz sabiamente o ditado popular “diga com quem tu andas, e eu direi quem tu és”.
Em quarto, a uma fidelidade que assumimos diante de um compromisso passado. O que estou dizendo aqui, é que assumimos para nós, uma identidade que esta ligada a algo realizado no passado.
Que graças a essa nossa fidelidade a um acontecimento passado, nos vemos no dever de manter, de continuar, é que criamos e mantemos uma identidade.
Como exemplo, um homem que se torna pai: ele assume o compromisso – não somente, mas inclusive, jurídico – que biologicamente ele é o pai de uma determinada criança, podendo vir assumir uma relação afetiva, de pai pra filho, vivenciando assim, uma identidade.
Concluindo, penso que temos uma identidade, mas que dentro dessa identidade, estamos constantemente numa espécie de jogo de nós para com o outro, aonde o outro, complementa (e vice-versa). Exemplo: sou pai, mas sou pai de “alguém” que é meu filho.
Nesse sentido, sempre somos e estamos em relação com outro "alguém". Por isso, que às relações são tão importantes na construção de nossa identidade, ainda que esta nunca esteja definitiva, fechada e acabada, mas que a base dela será fundamentada nas relações familiares, com a comunidade, cultura e sociedade, onde estamos inseridos.

A força da religião


PENSO QUE A RELIGIÃO – não com seus dogmas, crenças e códigos de conduta moral – com sua espiritualidade, transcendência, é o final da linha para a humanidade, de que fora dela não há salvação, não há solução, nem cura e nem esperança.
O que há, são apenas frágeis "paliativos" para lidar com o terrível drama humano. Nesse sentido, as ciências, as politicas, o governo, a Razão, tecnologia, são como um barco afundando em meio ao oceano da nossa trágica existência, onde estamos apenas tentando tirar a água do nosso barco com uma canequinha furada.
Peguei pesado agora né? Mas talvez, essa seja a única forma mais “pedagógica”, por assim dizer, de expressar a imensidão e complexidade da existência, com seu absurdo e falta de sentido último, e das inúmeras ilusões criadas por nós, para suportamos a vida, finita, insignificante, sofrida e miserável.
Compartilho do pensamento de grandes pensadores, como Nelson Rodrigues, para o qual, se tirar do homem sua imortalidade, ele cai de quatro – referindo a animalidade humana, de sua importância. Como também, com Dostoiévski, de que se alma humana não é imortal, e se Deus não existe, tudo é permitido.
Ou seja: para Dostoiévski não há saída para a humanidade, quando retirada dela, sua espiritualidade e transcendência, ficando apenas com a natureza e razão, ou seja, com a materialidade e a tecnicidade.
Podemos ter “evoluídos” na tecnologia, avançados na ciência como nunca antes, desenvolvidos diversas ciências sociais para lidar com os problemas sociais, psicológicos, econômicos e relacionais, mas, por outro lado, não damos conta de lidar com o buraco existencial humano.
No fim, estamos apenas andando em círculos, como cachorros correndo atrás do próprio rabo. E o que é pior: não há mais para onde ir. Tudo que se imaginava e sonhava nos séculos passados, principalmente do iluminismo, de certa forma já foi alcançado – temos como nunca uma tecnologia e ciência sem precedentes nunca antes na história – e por isso, talvez, o desespero e angústia do animal humano seja muito maior.
Como dizia o Chapolim Colorado: “e agora, quem poderá nos defender?”. Nós “matamos” Deus, e agora, não há esperança para nós mortais, sem alma, sem céu, sem salvação, sem deus. Somos como animais, só que eles, tem melhor “sorte” do que nós, porque não tem (assim especulamos) a consciência da miséria existencial que é ser apenas de “carne e osso”.