Por Edson Moura
Embora este
seja um dos desejos mais antigos e profundos da humanidade, a probabilidade de
a ciência um dia atingir o feito da imortalidade consciente é absolutamente
zero. E eu explico o porquê: a eternidade é um conceito que a física aceita
para a matéria, mas que a biologia e a filosofia rejeitam para a identidade.
Para entender por que você está destinado a desaparecer — mesmo que seu corpo
físico fosse preservado por milênios —, precisamos primeiro olhar para um antigo
dilema marítimo que assombra a lógica ocidental.
A história,
relatada por Plutarco, conta que o navio com o qual Teseu e os jovens de Atenas
retornaram de Creta foi preservado pelos atenienses por séculos. À medida que
as tábuas de madeira apodreciam, elas eram substituídas por peças novas e mais
fortes. Eventualmente, não restava uma única fibra de madeira original no
navio.
Surgiu então o
paradoxo: aquele ainda era o navio de Teseu? Se cada componente foi trocado,
onde reside a "essência" da embarcação? Se pegássemos todas as tábuas
velhas e descartadas e montássemos um segundo navio, qual deles seria o
verdadeiro? O ser humano é o Navio de Teseu da biologia. Mas, ao contrário do
navio de madeira que apodrece lentamente, nós somos uma tempestade de
substituições em tempo real. Você não é uma estátua; você é um processo.
A ciência
moderna nos mostra que o conceito de um "corpo sólido e permanente" é
uma ilusão de óptica causada pela nossa escala de tempo. Do ponto de vista
celular, você é um sistema de reciclagem ininterrupto.
Suas células
intestinais duram apenas cinco dias; elas enfrentam o ambiente corrosivo da
digestão e se sacrificam para que você continue absorvendo energia. Sua pele, a
barreira que você acredita que o define perante o mundo, é inteiramente trocada
a cada quatro semanas. Seus glóbulos vermelhos vivem 120 dias, percorrendo
quilômetros de veias antes de serem reciclados pelo baço. Até mesmo seus ossos,
que parecem a parte mais estável de sua estrutura, levam cerca de dez anos para
serem totalmente remodelados.
Estima-se que,
a cada sete a dez anos, a maioria da sua massa celular física foi trocada. Você
pode pensar: "Ok, mas e se interrompermos o envelhecimento ao ponto de
vivermos mil anos?" A resposta é que, mesmo que você preservasse a
carcaça, o "capitão" do navio — sua mente — não sobreviveria à
passagem do tempo.
O filósofo
Heráclito afirmou que "nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio duas
vezes". O motivo é duplo: as águas fluem e mudam, e o homem já não é o
mesmo. A física de partículas pode lhe prometer que seus átomos são eternos —
eles estarão por aí muito depois que seu coração parar —, mas sua consciência
jamais estará.
A consciência
não é um objeto; é um estado. É o ruído vibrante de conexões sinápticas que
mudam a cada microssegundo. Se mudamos nosso pensamento às vezes de um dia para
o outro, imagine o efeito de séculos de existência. Em décadas, somos
completamente diferentes do que éramos; em séculos, seríamos estranhos para nós
mesmos.
Se você
vivesse mil anos, a pessoa que você seria no ano 900 não teria quase nenhuma
conexão psicológica com a pessoa que você é hoje. Suas memórias seriam apagadas
pelo volume colossal de novos dados; seus traumas seriam diluídos; seus amores
originais seriam ecos de um milênio atrás. Você não seria o "Navio de
Teseu" de si mesmo; você seria uma frota inteira de navios diferentes
navegando em épocas distintas, cada um carregando um "eu" que já
morreu.
Aqui entramos
no choque de visões que define nossa existência. Peter Wessel Zapffe argumentou
que o ser humano sofre de um "excesso de consciência". Somos a única
criatura que carrega o peso de perguntar "por quê" diante de um
universo que apenas responde "como". Para Zapffe, a imortalidade
seria a condenação máxima: ser obrigado a carregar o fardo da autoconsciência
por uma eternidade sem propósito.
Richard Feynman, por outro lado, nos ensina a leveza. Ele via a física como uma ferramenta para desmontar o brinquedo do universo e ver como as engrenagens giram. Para Feynman, a beleza de uma flor não diminui quando entendemos sua estrutura atômica; ela se multiplica. Ele aceitaria a finitude como um brinde. Ele diria que você não é o dono dos seus átomos; você está apenas "pegando-os emprestados" para uma breve dança consciente.
Aceite sua
finitude como consciência e personalidade. Você é um instante luminoso entre
duas eternidades de escuridão. Tentar congelar esse instante para sempre é
lutar contra a própria natureza da realidade, que exige o movimento para
existir.
O Big Bang não foi um ato de
glória estática; foi um ato de "autodestruição necessária". Foi o “Universo”
rasgando a própria pele de eternidade para que o tempo pudesse fluir. Para que
você pudesse existir agora, algo precisou terminar antes. Para que o
"você" de amanhã exista, o "você" de hoje precisa ceder
espaço.
Receba de
brinde a eternidade cósmica. Seus átomos já brilharam em estrelas e um dia
voltarão para elas. A consciência é o espelho que o universo usa para olhar
para si mesmo por um breve momento. Não lamente que o espelho vá se quebrar;
maravilhe-se com o fato de que, por um instante, ele refletiu o infinito.

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