quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Revisitando meu “outro evangelho”

 

Após quase 10 anos depois da minha última postagem, neste blog, decidi voltar a escrever novamente aqui um texto. E, nada melhor para (re)começar do que um texto (re)visitando meu (des)caminho pela fé e espiritualidade.

 

Era jovem, crente, congregando em uma das mais tradições igrejas evangélicas do Brasil, a assembleia de Deus. Cheio de sonhos e projetos religiosos (sonhava em ser missionário). Era pregador pentecostal. Mas (às vezes na vida tem um “mas” que muda a rota dela), fui entrando em contato com outros saberes (filosofia, psicologia, ciência e religiões).

 

Já não pensava mais apenas dentro de uma única caixa conceitual. Tive coragem de olhar por cima das “cercas do quintal” as quais me cercavam. E vi que o mundo das ideias, dos pensamentos, era muito mais imenso do que a cartilha religiosa dos evangélicos que eu, ano após ano, só decorava e repetia. Porque teologia é isso: mudam os autores, mas repete-se os conceitos que são apenas ditos com outras “roupagens”.

 

E cansei de ficar só (re)lendo e repetindo conceitos que são tidos como “vacas sagradas” do cristianismo, mas vazios de conexão com o “chão” da vida, da existência. Vi que muitas coisas que eram pregadas nos púlpitos das igrejas, as quais eu mesmo um dia também preguei, não se sustentavam na prática cotidiana.

 

Domingo a noite, pregações de que os crentes eram mais que vitoriosos, que Deus iria fazer milagres em nossas vidas, mas na segunda, a vida continuava tal qual sempre foi: acordar cedo, pegar ônibus e metrô cheios, trabalhar para pagar as contas; levar filho doente no médico; viver a vida com seus altos e baixos (às vezes, mais baixos do que altos). E, observando o mundo, continuava vendo as suas inúmeras injustiças e tragédias.

 

Só porque éramos crentes não vivíamos em “bolhas de aço”, super protegidos, intocáveis, ungidos, eleitos de Deus. Continuávamos humanos, demasiados humanos, sujeitos as mesmas contingências, as mesmas adversidades, a mesma montanha-russa da vida que todos, crentes e não crentes, estavam sujeitos.

 

Minha fé, até então infantil, se chocou com a vida e os conceitos de diversos saberes, além de leituras alternativas da fé cristã. De pensadores cristãos que não se limitavam a ser meros “papagaios” e repetidores de conceitos “engessados” do cristianismo. Dessas fontes intelectuais e da própria experiência da vida me trouxeram para o “chão” dessa existência.

 

E além disso, de uma postura curiosa, refletidora, cética e, acima de tudo, que tolera a incerteza, dei um salto não no abismo da fé, mas nas dúvidas. Foram anos de um processo de (des)crença, de um (des)caminhar por caminhos caminhantes de reflexão, de autoquestionar a si mesmo, a própria fé e crença.

 

Não foi fácil. Caminho espinhoso. Duro. Trabalhoso. Mas honesto comigo mesmo.  Onde abandonei as certezas de uma fé inabalável em uma espiritualidade sobrenatural, voltando-me para uma vida com suas incertezas, com suas percepções que reconheço frágeis, temporárias, mas por isso, belas e significativas.

 

Atualmente meu caminho já são outros porque o próprio caminhante (eu), também é outro. Não tenho mais preocupações com Deus, céu, inferno, diabo, anjos, vida após a morte. Tenho interesse na vida pela vida. E se você pensa que ao me desligar dos evangelhos me desliguei da vida, está enganado: sou mais fervoroso ainda mais com a vida, valorizando-a nos seus momentos e instantes de alegrias com pessoas significativas próximas a mim.

 

Porque entendo que os sentidos e significados da vida são atribuições e construções que nós humanos fazemos.  Ou seja: a partir dessa lente de ver o mundo, trazemos para nós a responsabilidade com a nossa existência, com as pessoas ao nosso redor, com o mundo, com a vida, em vez de jogar para o “andar” de cima.

 

Minha existência agora só tem o “chão” da vida para eu pisar e caminhar, o vento com sua brisa para me refrescar, a água para me molhar, os sabores das comidas e músicas para me deliciar, e os afetos das companhias das pessoas que amo. E acima de mim, o céu com o sol para me aquecer, com suas nuvens para me darem sombra, a lua e as estrelas, à noite, para me iluminar. Esvazie-me de sentidos sobrenaturais, mas me enchi com os sentidos terrenos e existenciais de existir.