Após quase 10 anos depois da minha última postagem, neste blog, decidi voltar a escrever novamente aqui um texto. E, nada melhor para (re)começar do que um texto (re)visitando meu (des)caminho pela fé e espiritualidade.
Era jovem, crente, congregando em uma
das mais tradições igrejas evangélicas do Brasil, a assembleia de Deus. Cheio de
sonhos e projetos religiosos (sonhava em ser missionário). Era pregador
pentecostal. Mas (às vezes na vida tem um “mas” que muda a rota dela), fui
entrando em contato com outros saberes (filosofia, psicologia, ciência e
religiões).
Já não pensava mais apenas dentro de
uma única caixa conceitual. Tive coragem de olhar por cima das “cercas do
quintal” as quais me cercavam. E vi que o mundo das ideias, dos pensamentos,
era muito mais imenso do que a cartilha religiosa dos evangélicos que eu, ano
após ano, só decorava e repetia. Porque teologia é isso: mudam os autores, mas repete-se
os conceitos que são apenas ditos com outras “roupagens”.
E cansei de ficar só (re)lendo e
repetindo conceitos que são tidos como “vacas sagradas” do cristianismo, mas
vazios de conexão com o “chão” da vida, da existência. Vi que muitas coisas que
eram pregadas nos púlpitos das igrejas, as quais eu mesmo um dia também
preguei, não se sustentavam na prática cotidiana.
Domingo a noite, pregações de que os
crentes eram mais que vitoriosos, que Deus iria fazer milagres em nossas vidas,
mas na segunda, a vida continuava tal qual sempre foi: acordar cedo, pegar ônibus e metrô cheios, trabalhar para
pagar as contas; levar filho doente no médico; viver a vida com seus altos e
baixos (às vezes, mais baixos do que altos). E, observando o mundo, continuava vendo
as suas inúmeras injustiças e tragédias.
Só porque éramos crentes não vivíamos
em “bolhas de aço”, super protegidos, intocáveis, ungidos, eleitos de Deus. Continuávamos
humanos, demasiados humanos, sujeitos as mesmas contingências, as mesmas
adversidades, a mesma montanha-russa da vida que todos, crentes e não crentes,
estavam sujeitos.
Minha fé, até então infantil, se
chocou com a vida e os conceitos de diversos saberes, além de leituras
alternativas da fé cristã. De pensadores cristãos que não se limitavam a ser meros
“papagaios” e repetidores de conceitos “engessados” do cristianismo. Dessas fontes
intelectuais e da própria experiência da vida me trouxeram para o “chão” dessa
existência.
E além disso, de uma postura curiosa,
refletidora, cética e, acima de tudo, que tolera a incerteza, dei um salto não
no abismo da fé, mas nas dúvidas. Foram anos de um processo de (des)crença, de
um (des)caminhar por caminhos caminhantes de reflexão, de autoquestionar a si
mesmo, a própria fé e crença.
Não foi fácil. Caminho espinhoso. Duro.
Trabalhoso. Mas honesto comigo mesmo. Onde
abandonei as certezas de uma fé inabalável em uma espiritualidade sobrenatural,
voltando-me para uma vida com suas incertezas, com suas percepções que
reconheço frágeis, temporárias, mas por isso, belas e significativas.
Atualmente meu caminho já são outros
porque o próprio caminhante (eu), também é outro. Não tenho mais preocupações
com Deus, céu, inferno, diabo, anjos, vida após a morte. Tenho interesse na vida pela vida. E
se você pensa que ao me desligar dos evangelhos me desliguei da vida, está
enganado: sou mais fervoroso ainda mais com a vida, valorizando-a nos seus
momentos e instantes de alegrias com pessoas significativas próximas a mim.
Porque entendo que os sentidos e significados
da vida são atribuições e construções que nós humanos fazemos. Ou seja: a partir dessa lente de ver o mundo, trazemos
para nós a responsabilidade com a nossa existência, com as pessoas ao nosso redor,
com o mundo, com a vida, em vez de jogar para o “andar” de cima.
Minha existência agora só tem o “chão”
da vida para eu pisar e caminhar, o vento com sua brisa para me refrescar, a água para me molhar, os sabores das comidas e músicas para me deliciar, e os afetos das companhias das pessoas que amo. E acima de mim, o céu com o sol para me aquecer,
com suas nuvens para me darem sombra, a lua e as estrelas, à noite, para me
iluminar. Esvazie-me de sentidos sobrenaturais, mas me enchi com os sentidos
terrenos e existenciais de existir.