domingo, 17 de janeiro de 2010

"Lembranças de minha vida eterna"






    Por: Edson Moura

    Quando a escuridão se dissipou, uma luz intensa ofuscou meus olhos. Jamais pensei que houvesse tamanha claridade vinda do Sol. Ele estava com um brilho diferente; poderia até afirmar que estava mais próximo da Terra, mas não estava mais quente — pelo contrário, a sensação térmica era agradabilíssima.

    Finalmente comecei a lembrar, de forma fragmentada, da noite anterior. Eu estava esperando um ônibus no ponto da Av. Rebouças quando, de repente, um automóvel desgovernado veio em minha direção. Lembro-me de que não tive reação nenhuma; meus músculos se enrijeceram para esperar a colisão daquele monstro de ferro e aço contra meu frágil corpo de carne e ossos.

    Meu Deus! Agora entendo! Eu morri! EU MORRI!!

    — Acorde, moço! Você não deveria estar tendo pesadelos! Sua memória deveria ter sido apagada quando veio para cá. Desde que chegou, todos os dias você tem sonhos com suas lembranças de uma vida passada. Aliás, você não deveria nem dormir aqui... você deve aproveitar a Glória que resplandece do trono branco.

    — Você já me disse isso, Senhor, mas alguma coisa saiu errada no meu caso. Já estou por aqui há quase 10.000 anos, e essas lembranças me atormentam.

    Eu me lembro da minha vida lá embaixo: dos meus filhos, minha esposa, meus amigos... e sinto falta de tudo isso. Ainda ontem mesmo, eu passei por um rapaz que, tenho certeza, era meu filho; falei com ele, mas ele nem me respondeu. Meu coração bate desesperado quando vejo passar por mim minha esposa, e ela nem sabe quem sou.

    Todos por aqui vivem em estado de êxtase o tempo todo; parecem até zumbis. Ninguém por aqui chora. Ah, como era bom chorar! Sentir aquelas lágrimas quentes correndo pelo meu rosto, sofrendo de amor ou até mesmo chorando de alegria por pegar no colo, pela primeira vez, minha filha ao nascer.

    Este lugar não é bem aquilo que me diziam na igreja. Tudo se torna chato com o passar do tempo — e bota tempo nisso. E quando penso que será pela eternidade, não tenho mais vontade de fazer nada.

    — Meu filho, este é o céu! Todos os seus irmãos estão aqui. O fato de eles não o reconhecerem é porque receberam um novo corpo e novas mentes. Tudo aqui gira em torno de meu Pai; este era o grande plano d’Ele desde a fundação do mundo. Aqui não se casa, aqui não existem pensamentos maus, pensamentos sensuais, desejos carnais ou quaisquer outros desejos e sensações que vocês sentiam lá embaixo. Tem que ser deste jeito, pois é a vontade de meu Pai. Já tentamos consertar o erro que cometemos no seu caso, mas, de alguma forma, não conseguimos deletar suas lembranças. Elas fazem parte de seu Ser. Talvez seja porque você as viveu com muita intensidade; você levou ao pé da letra quando eu disse: “Vim para que tenham vida, e vida com abundância”.

    — Mas, Senhor, o grande segredo da vida é saber que um dia ela irá se acabar; por isso vivi de forma tão intensa. Eu vivia cada dia como se fosse o último. Eu aproveitava os detalhes da natureza para não deixar passar nada despercebido. Quantas vezes eu não ficava olhando as borboletas a voar, sabendo eu que suas vidas seriam tão efêmeras? Eram flores com asas que enfeitavam nosso planeta. Quantas vezes eu saboreei um pedaço de picanha, mastigando-o bem devagar, só para sentir o gosto da carne descendo até meu estômago? E quando eu saía correndo do trabalho e chegava em casa depois de ficar em pé quase três horas num ônibus lotado, só para poder brincar um pouco mais com meus filhos? E eu só fazia isso porque sabia que o tempo passava rápido; logo mais eles cresceriam e deixariam as brincadeiras. Mas aqui não! Aqui tudo perdeu o sabor, o prazer, pois sei que o tempo não tem a menor importância. Para os outros que estão aqui, tanto faz, porque eles não têm memória; mas para mim, que me lembro de tudo, é horrível! Sem dizer que nos é tirado aqui um dos maiores prazeres que tínhamos lá na “vida”: o sexo — ou melhor dizendo, o amor. Quando fazíamos amor, era algo fantástico. Esquecíamos todos os problemas e nos entregávamos ao prazer. E o melhor disso tudo é que, quando chegávamos ao clímax, não durava mais que 15 segundos, mas eram os melhores 15 segundos do dia.

    — Filho, eu entendo tudo o que você está me dizendo e até já falei com meu Pai. Ele me disse que só existe uma maneira de corrigir este problema, mas não sei se você vai aceitar as condições. Quer que eu lhe fale ou prefere ignorar tudo e viver a eternidade aqui? Veja bem, estou falando de vida ETERNA!

    — Faço qualquer coisa para sentir de novo as sensações que outrora senti!

    — Pois bem! Depois não vá se arrepender. A proposta é a seguinte: Ele tem o poder de lhe mandar de volta exatamente para o mesmo momento em que você foi tirado de lá. Você viverá mais 50 anos e depois morrerá. Não terá direito à vida eterna. Será aniquilado e sua alma e espírito voltarão para meu Pai. Ainda quer voltar para a vida, filho?

    — Senhor meu, ainda que eu só tivesse mais dois dias lá na Terra, mesmo assim eu aceitaria esta proposta. Pois valerá muito mais a pena olhar nos olhos de pessoas que conhecia e dizer-lhes que as amo, e que nada no universo é mais prazeroso do que estar ao lado de quem amamos. Quero dizer-lhes também que vivam a vida com alegria, pois ela passa, e depois o que vem é o vazio eterno. Prefiro não viver eternamente a viver e não poder reconhecer as pessoas que viveram comigo. Não quero passar por amigos como Márcio, Carlos, Gresder, Leví, Eduardo, Wagner, Jair e tantos outros que conviveram comigo e não me lembrar deles... isso seria triste. Quero voltar e, certamente, viverei ainda mais intensamente esta nova vida.

    — Que assim seja, então, meu filho!

    Que Deus nos permita lembrar e nunca esquecer que fomos humanos, que amamos, que sofremos, que choramos... mas, acima de tudo, que vivemos.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Re-significando o passado-passado, mas não perdido!



Por: Marcio Alves


Além de termos o poder de resgatar o nosso passado, vivendo-o através das memórias, ainda nos resta um poder maior, a saber:


De re-significar o nosso passado-passado, mas não perdido!


Acredito que esse conceito se encontra em Paul Tillich.


O nosso passado, ao contrario do que muitas pessoas pensam, não está totalmente petrificado, fechado para mudanças.


Ele não é imexível!


Podemos mudar o nosso passado, dando através dele e para ele, um novo significado para o nosso presente.


Redirecionando e redimensionado o nosso presente a parti das experiências do passado.


Ou seja, aprendendo com as experiências que tivemos em nosso passado, podemos tomar novos rumos.


Circunstancias que hoje vivemos talvez não se vivesse, se antes, não tivéssemos vivido-as no passado.


A vida realmente é uma escola, e isto não é um chavão!


Vivemos o presente, olhando e mirando no futuro, lutando para se alcançar o nosso alvo, mas sem esquecer também de olhar para o nosso passado, de onde tiramos aprendizados que dará significado ao nosso presente.


Exemplificando – como ex-professor de escola dominical, gosto de usar exemplos para explicar conceitos – é mais ou menos assim:


O rapaz por nome “A” foi no passado um viciado em drogas, no presente ele pode re-significar o seu passado, digamos “negro”, usando sua experiência dramática de drogado, para ajudar pessoas nas mesmas situações dele de outrora.


Ou seja, ele voltou ao passado e conseguiu através dele redirecionar o seu presente, dando vida a sua experiência ruim. Ajudando pessoas a saírem do mundo das drogas, pela sua experiência, acabou de transformar o seu passado outrora maldito, em benção.


O que o rapaz fez com o seu passado?


Ele não mudou as circunstancias, mas mudou o significado, dando sentido a uma situação passada e morta.


Portanto, como seres humanos de carne e sentimentos, frágeis e vulneráveis, temos necessidades subjetivas na nossa interioridade de vez ou outra, voltarmos ao passado, como um exercício nostálgico de deleite e ao mesmo tempo de profunda melancolia, de resgatarmos através das lembranças do nosso subconsciente, momentos, lugares e pessoas que nos foram especiais.


Porém, o mais poderoso significado e relevância é o de dar sentindo, razão e significado ao nosso presente, nos espelhando – seja para repetir algumas atitudes ou de não fazer algumas atitudes – no nosso passado já passado, mas vivenciado nas nossas mentes e atitudes.


Portanto passado é passado, e não volta mais!


Mas as experiências vividas nos darão o chão do presente, e nos empurrará para enfrentar o futuro.



Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Alcançado pela graça...a reabilitação de um traidor.



Por: Edson Moura


O texto que segue, nada mais é do que uma reflexão acerca das crenças que nos passaram através dos séculos. Minha consciência resiste em acreditar que Deus seria tão perverso ao ponto de usar uma vida inocente para realizar seus projetos

Muitos até poderão achar falhas no que escrevo, mas este talvez seja o intuito do artigo. Estou aberto a discussões, desde que elas venham a nos aproximar mais e mais uns dos outros.

O nome que ecoou pelos séculos:

Ninguém quer levar o nome de Judas Iscariotes.

Eu particularmente, até hoje, não conheço uma só pessoa com este nome, (alguém aí da blogosfera conhece?)

E por que?

Porque este nome foi manchado com o estigma da traição. Diferente dos demais apóstolos, que muitos querem imitar. Eu penso que, em vez de recriminação, o discípulo traidor é digno de pena ou misericórdia, até porque nós, embora sem levarmos o nome dele, temos caído, quem sabe, no mesmo erro.

Quem era Judas o Iscariotes?

Ele fora chamado pelo Mestre, igual aos demais discípulos.

Acredito que Cristo tenha visto nele um jovem inteligente, entusiasta, dinâmico, em quem se escondiam tremendas possibilidades para o bem.

De outro modo, nunca haveria sido chamado. Acompanhou o Mestre como os demais, recebeu insultos com o Mestre, sofreu fome com Ele, se alegrou com Ele em suas vitórias, foi testemunha de toda a glória do Senhor, e nela se alegrou, ele esteve lá.

Foi premiado com um posto de honra, ou seja, era um homem de confiança do Mestre, de outra maneira nunca haveria sido o tesoureiro daquele grupo.

Foi um grande administrador, possivelmente devido a sua habilidade, os discípulos não sofreram privações maiores.

Seus companheiros nunca duvidaram dele.

Pelo menos durante um certo tempo, Judas desempenhou seu trabalho fielmente, com absoluta honra.

Segundo o pensamento popular, muita gente merece o “inferno”, mas devemos recordar que a graça de Deus é infinitamente maior que nossa debilidade.

Pedro e Judas cometeram faltas parecidas: Pedro negou Jesus três vezes, e Judas o entregou. E agora Pedro é recordado como um santo e Judas simplesmente como um traidor.

A principal diferença entre os dois não é a natureza ou gravidade de seu pecado, mas sim a vontade de aceitar a graça de Deus. Pedro chorou seus pecados, voltou a Jesus, e foi perdoado. O Evangelho descreve Judas enforcando-se desesperado.

Será que não há mais misericórdia nesse ato desesperado do “traidor arrependido”, do que na ação do pescador temperamental?

Uma coisa é certa: Judas arrependeu-se e até tentou desfazer seu erro. E a graça? Será que ela não o alcançou?

Para aqueles que ainda acreditam que Deus controla a tudo e a todos, fica a reflexão:

Judas foi só um instrumento nas mãos do grande arquiteto do universo, um mero objeto do “grande” plano de salvação da minha, e, sua pessoa caro leitor. Judas não tinha como escapar desse destino tão infeliz que era ser o traidor do filho de Deus.

No dia do “Juízo”, Judas terá fortes argumentos para se livrar das acusações. Acho até que pelo caráter contundente das provas, nem precisará de “advogado”.

Afinal de contas, ele foi o maior colaborador para o plano de salvação da humanidade. Exigirá seus direitos (como diz o R.R. Soares)

Será que foi assim?

Creio que não.

Onde há o arrependimento...há também o perdão...foi isso que Jesus tentou nos ensinar.

Que a graça de Deus esteja em todos nós!

domingo, 3 de janeiro de 2010

Cristianismo a-religioso




Por: Marcio Alves


Quero dar inicio aqui a um possível debate no campo dos argumentos, que mais será uma troca de idéias, onde o maior objetivo será aprender uns com os outros, nessa rede de amigos virtuais.

Convido a comentar a temática, expondo suas idéias, os grandes teólogos e filósofos de toda blogosfera:

Levi Bronzeado, Eduardo Medeiros, José Lima, Gresder Sil, Edson Moura, Kadu, Isaias Medeiros, Ednelson Coelho, Wagner, Jair Santos, Ivo Fernandes, entre tantos outros, e qualquer anônimo que seja apaixonado pela reflexão teológica e filosófica.


Começo indagando:

Qual a verdadeira proposta de Jesus?

Será que foi fundar mais uma religião, dentre tantas outras existentes?


Quero dar o ponta pé inicial, expondo minha opinião:

Mas já cogitando a hipótese de estar equivocado, pois como diz meu amigo Wagner: “Eu sei que nada sei”.

Partindo da premissa que esteja equivocado em minhas leituras, se há uma religião de Jesus, ela deve-ser entendida como:

“Uma religião para além da religiosidade”, “Uma religião sem religiosidades” ou ainda, ”Uma religião a-religiosa”.


Acredito, entendo e interpreto que Jesus não veio fundar uma nova religião, ou pior ainda, perpetuar a religião Judaica.

Pois de fato, o Cristianismo – se é que existiu o cristianismo como “cristianismo” no ideário de Jesus – de Cristo é singular, saindo do Judaísmo, mas rompendo com o mesmo.


A proposta de Jesus transcende e vai além dos limites da religiosidade das religiões existentes.

Na verdade, Jesus contraria o que de mais essencial, sublime e sagrado existe em todas as religiões existentes – inclusive no cristianismo – sacrifícios, templos e sacerdotes.

Ou seja, ele desacramentaliza a religião, a deixa fútil, sem qualquer valor.


Em muitas ocasiões, Jesus quando cura ou liberta alguém, ele não chama para segui-lo, mas diz para ir embora... ”vai em Paz e não peques mais”.

Inúmeras vezes, Jesus quebra a tradição religiosa, cultural e social do seu povo.

O maior exemplo disto, (para não citar todos) é o da mulher samaritana.
Quantas violações, Jesus não comete só aqui:
Conversando sozinho com uma mulher de procedência duvidosa, Samaritana, em um poço, em um horário em que somente as mulheres vinham pegar água.....


É em Jesus, o conceito e proposta singular que não se encontra em nenhuma religião que já existiu, a saber; a graça unilateral de Deus.

Todas as religiões conseguem se perpetuar através da lógica de causa e efeito, justiça retributiva, obediência-benção, desobediência-maldição.

Inclusive no próprio judaísmo.


Que pena que os crentes interpretam a frase: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, como liberdade apenas do pecado, pois tal frase dita por Cristo é muito mais abrangente e rica de significados, nos mostrando a total liberdade, inclusive liberdade que liberta da escravidão religiosa.


A mensagem do Reino de Deus não é uma mera mensagem religiosa.
Inclusive em Cristo, o caminho para o Reino é um paradoxo contrario a lógica da religião, pois os pobres, injustiçados, fracos e oprimidos já são do Reino sem precisar ser religioso.

Talvez fosse nas bocas dos profetas, que imaginava um reino de poder e triunfo, de um Deus poderoso que iria reger com varas de ferro todas as nações e povos.

Mas na boca de Jesus, ela perde o seu significado escatológico do ainda não e do só depois, e do lá, de poder e magia, para simplesmente e poderosamente significar, no aqui e agora, a inclusão social dos pobres, excluídos e marginalizados – pelo menos, na minha ótica.

Em qualquer lugar, tempo e sociedade que houver resgate da dignidade e inclusão social, mesmo que seja ateia, sem religião ou crença, ali esta o Reino de Jesus.


Pois fomos chamados por Deus, não para abraçar um credo religioso, dogmas e exclusivismos religiosos que nos separa do outro, mas o ideal magno do Reino, que é a implantação da justiça em um mundo injusto.


Alias o relacionamento com Deus é muito mais do que ir ao culto, dar ofertas, orar, ouvir um sermão, cantar alguns hinos e depois, se desligar e voltar para a vida.

Se os judeus adoravam a Deus em dias, horas e lugares especiais, nós somos convocados a adorar a Deus todos os dias, em todas as horas e em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa.


De sorte que o cristianismo deveria ser chamado de:



Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.