domingo, 18 de março de 2012

Coisas para dizer ao meu filho antes de morrer (parte2): meu afeto

Por: Marcio Alves

"(...) a vida é feita de fases, se você pular algumas dessas fases, a vida lá na frente te cobrarás e terás que de algum jeito viver ela"

Filho, tenho muitas coisas para te dizer ao longo de uma vida, mas não sem se isto será possível, pois as vezes a vida não espera você, e agora, não tens idade para uma conversa franca e verdadeira, pois não entenderias, e mesmo se entendesse, não suportaria agora, pois a vida é feita de fases, se você pular algumas dessas fases, a vida lá na frente te cobrarás e terás que de algum jeito viver ela.

"(...) Pois saiba que quando começamos a ter curiosidade por uma coisa, e buscamos lendo e questionando, é porque chegou a hora de sabermos sobre esta coisa."

Por isto, quero que seja criança quando na verdade tu és uma criança, e quando chegar a hora, e tiveres estruturas, lerás estas palavras de seu pai, que você mesmo irás procurar, e não porque alguém mandou você ler. Pois saiba que quando começamos a ter curiosidade por uma coisa, e buscamos lendo e questionando, é porque chegou a hora de sabermos sobre esta coisa. E isto é um processo natural que varia da constituição estrutural de cada individuo.

"(...) Por isto filho, mesmo não reconhecendo, somos todos “prostitutas” que vendemos, não os nossos corpos, mas aquilo que é mais precioso na vida que é o nosso tempo."

Saiba que o pai sempre te amou, e não foi possível passar mais tempo ao seu lado do que gostaria, porque o pai como todo ser humano, principalmente pobre, é um escravo do sistema que nos obriga trabalhar mesmo sem gostar pela necessidade do dinheiro. Por isto filho, mesmo não reconhecendo, somos todos “prostitutas” que vendemos, não os nossos corpos, mas aquilo que é mais precioso na vida que é o nosso tempo.

"(...) descobrirás que dinheiro é tudo sim, e quem diz que não é, é porque não tem e por isto despreza."

Não temo como fugir desta realidade, o que você pode fazer é tentar amenizar, estudando muito para escolher uma profissão que te de algo mais do que simplesmente dinheiro, muito embora, descobrirás que dinheiro é tudo sim, e quem diz que não é, é porque não tem e por isto despreza. Mas já que o trabalho por dinheiro é inevitável, tente escolher uma profissão que te agrade, de preferência que te de algum tempo para você gozar da vida, pois não há nada pior do que viver para trabalhar, tente trabalhar para viver.

Saiba viver os momentos da vida: se estais sem dinheiro, não tente bancar o endinheirado gastando com o que não tem, mas também se tiver, não sejais pão duro não querendo gastar dinheiro, pois saiba, que tudo passa, e se não souber viver nas circunstancias que a vida se apresentar para você, poderá viver na loucura do endividamento ou na mesquinhez do não gastar, e nada aproveitar.

"(...) Não esteja nem no pólo da total responsabilidade humana, onde se você é um fracassado a culpa é somente sua, mas também não esteja no outra extremidade que enxerga a vida como uma simples fatalidade “o que será será esta escrito nas estrelas”.

Entenda que se o seu pai não te deixou uma boa vida é que ele também não teve uma nem para ele mesmo viver. Por isto, faça você mesmo sua vida, na medida em que ela lhe for favorável.

Não esteja nem no pólo da total responsabilidade humana, onde se você é um fracassado a culpa é somente sua, mas também não esteja no outra extremidade que enxerga a vida como uma simples fatalidade “o que será será esta escrito nas estrelas”.

"Em fim, o pai sempre te amou e isto, é o que mais importa."

Entenda, que as situações que vivemos, sejam elas boas ou ruins, tem uma parcela de culpa as fatalidades que nos abatem, mas também da nossa capacidade de reviravolta e de saber lidar aproveitando ao extrair ao máximo mesmo da situações que nos são contrarias, coisas boas.

Em fim, o pai sempre te amou e isto, é o que mais importa.....

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sábado, 3 de março de 2012

"Precisamos falar sobre o Kevin"

Por: Marcio Alves

Sempre achei que o ser humano não fosse totalmente bom, mas nunca pensei que chegaria ao extremo de enxergá-lo como “ovelha puramente negra”. E olha que eu combatia ferozmente o conceito tradicional cristã de “pecado original” e “queda” – tudo bem que essa estória (sem “h”) de que por causa de Adão e Eva, o mundo todo como o ser humano esta em treva, não passa de “historinhas infantis”, mas o conceito do ser humano mergulhado no “pecado” e que está irremediavelmente “perdido” é muito ilustrativo e valido, como metáforas para mostrar a natureza má e sem solução do ser humano.

Chama-me muita atenção o fato de estar em voga hoje em dia, no meio acadêmico das ciências sociais, a imagem do ser humano bondoso que é corrompido pela sociedade. Desta forma, a culpa sempre recairia sobre o meio, nunca sobre a “natureza” do individuo.

O filme “Precisamos falar com Kevin” é como um soco na boca do estomago desta mesma ciência social, que não percebe e/ou não quer ver, (claro, como ficaria o emprego dos psicólogos e sociólogos, se eles admitissem que o ser humano esta definitivamente perdido sem salvação? E olha que eu falo contra mim mesmo, pois estou me formando em psicologia. Risos) que para além do “simples” meio social – eu sei que o meio exerce uma função importante sobre o individuo – existe inclinações naturais em todo sujeito.

Não vou entrar em detalhes do filme, até porque não é este meu propósito com o texto – mentira! É que não sou bom em resenhas ou criticas de filmes (risos) – mas o cerne do filme é justamente o que vou aproveitar e colocar como discussão aqui, pois o ser humano já nasce mal ou será que é corrompido pela sociedade? Existe maldade gratuita? E a bondade...será que existe mesmo bondade altruísta neste mundo?
Ou toda bondade é realizada com “segundas” (às vezes até terceira, quarta...) intenções, mesmo que seja “inconsciente”?

Na minha visão “Rodriguiriana” não existe bondade altruísta, pois toda ação bondosa tem um ganho, mesmo secundário e inconsciente.
Nem que seja o prazer que a pessoa “bondoso” sente ao ajudar alguém necessitado, excluído ainda a tentação que dificilmente a pessoa “bondoso” escapa que é de se achar (vaidade) uma ótima pessoa (uma pessoa do “bem”) e de passar para os outros que ela é legal e sincera.

E a prova mais contundente disto é o amor.. (explico)
É o sentimento encarado pela sociedade como o mais puro e lindo. Inclusive, para os cristãos, é a principal e máxima virtude – lembra de Paulo que disse “permanecem a fé, esperança e o amor, dos três, o mais importante é o amor”. Pois então...o amor, aquele mesmo que você meu caro leitor, jura ter por seu filho, mãe, esposa ou esposo, amigo ou irmão, (e, eu acredito!) este mesmo amor é egoísta primeiramente, sempre.

Pois sempre amamos o que é nosso com a condição sine qua non de ser nosso. Por isso que o amor que seria aquele que talvez redimisse a humanidade de sua egocêntricidade e maldade, é o maior exemplo de egoísmo. Inclusive tudo que fazemos, seja do ator menor: dá presente, ao ato maior: dar a vida, fazemos por nós mesmos egoisticamente, centrado sempre em nós – pois nós dá prazer fazer quem nós amamos felizes.

Mas é claro que toda esta maldade não é “culpa” nossa, nem muito menos da nossa sociedade materialista, consumista e individualista – embora também o seja – mas principalmente porque somos assim, e se somos assim porque somos assim (ou porque fomos “feitos” assim para quem crer em criação) não temos culpa...isto faz parte de nosso instinto, e esta para alem da nossa vontade.

É por isto (e por outros motivos que não vem ao caso agora) que acho as ciências sócias uma piada, ou, um simples e insignificante doril para um câncer que é o ser humano.

Ainda realmente você quer me pergunta meu caro leitor, se acredito no ser humano ou em um mundo mais bonito e legal?
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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Coisas para dizer ao meu filho antes de morrer (parte 1)

Por: Marcio Alves

Sabe aquela nítida sensação (ou intuição) de que eu posso morrer sem ter falado tudo que eu gostaria de ter dito (e que acho ser importante) para meu filho?
Pois é, sensação ou não, premonição ou não, mesmo muitas pessoas acreditando nisto, ou até testemunhando terem vivenciado tais experiências, eu mesmo não acredito, mas vai que acontece não é mesmo? (risos)

Alias, diga-se de passagem, que isto pode acontecer mesmo tendo uma “premonição” ou não, acreditando ou não, pois o que é a vida se não como um pó de areia assoprado e desfeito pelo vento do deserto?
Hoje nós estamos, mas amanhã de repente já não somos mais, ou só somos lembranças frágeis recordadas por pessoas também frágeis que logo passarão e com elas as lembranças que tiveram de nós e que nos faziam ainda ser “vivos”.

Por isto, escreverei esta serie de postagens, como uma forma de deixar escrito para meu filho de apenas quatro anos, como uma garantia que mesmo depois de morto, ele “ouvirá” minhas próprias palavras, e “diretamente” por mim, e não uma interpretação do que eu queria dizer.

Sendo assim, estas postagens carregam em si a intenção de serem cartas abertas dirigidas ao meu filho, aonde procurarei ser o mais transparente e sincero em minhas palavras.
Palavra estas, às vezes nua, crua, sem sabor e cheiro – tal como é a vida muitas vezes – mas sempre carregadas de muito afeto, carinho e ternura, pois estou escrevendo para meu filho.

A bem da verdade, é que não sei quantas postagens escreverei, pois esta idéia brotou em mim de modo natural e espontâneo, do mesmo jeito que serão as palavras escritas daqui para frente nas próximas postagens.

Só espero que meu filho não morra antes de mim, o que também é trágico, mas bem possível e verdadeiro, levando em conta o que nossa vida é: insignificante e passageira.
Pois a maior tragédia, não é o filho enterrar o pai, mas o pai enterrar o filho, apesar disto esta se tornando cada vez mais corriqueiro.
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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Morre Whitney Houston...quem será o próximo?




Por: Marcio Alves

Todos nós já enfrentamos fila alguma (ou algumas) vezes na vida...dependendo da cidade que você more, (como São Paulo) isto é uma coisa normal, o anormal seria você ir em um dia de domingo, por exemplo, a noite, em um cinema aqui em Sampa, e não pegar fila. Ou, em um banco de preferência Itaú ou Bradesco, na semana do pagamento, e não encontrar nenhuma fila...isto seria impossível...mas fácil é deus existir do que não ter algum tipo de fila aqui em São Paulo. (Eu mesmo já enfrentei uma, certa vez, para ir ao banheiro! Isto mesmo!)

Mas de todas as filas indesejáveis que existem, principalmente numa metrópole como São Paulo, aquela que temos mais medo e que todos nós, sem exceção, temos que enfrentar é a “fila da morte”, isto mesmo que você leu meu caro leitor.

Eu vejo a morte como uma fila, às vezes extensa, outra vezes muito curta – me explico.
A sensação que tenho toda vez em que leio ou vejo nas manchetes de jornais que um artista seja ele quem for (na quarta foi o Wando) que morreu, eu fico com a nítida sensação de que a “fila da morte” esta cada vez menor, e que o próximo pode ser eu!

Antes que você meu caro leitor, me rotule de pessimista, ou algo assim, eu quero deixar claro que esta sensação de estar em uma grande fila, onde todos os seres humanos caminham a passos largos e enfileirados em direção ao abismo que se chama morte, isto de alguma forma me consola, pois sei que nesta angustia que eu chamo de “pré-morte” que advêm da “pós-morte” de um conhecido – já falo disto daqui a pouco – estão comigo simplesmente toda raça humana a compartilha deste mesmo destino e desespero, e isto, funciona como um remédio contra a angustia da finitude – você meu caro leitor deveria experimentar este “remédio”...faz tão bem. (risos)

Em relação ao conceito de “pré-morte” que vivenciamos na “pós-morte” do outro, é que o choro de quem fica por quem “vai”, não é tão-somente ou apenas somente, pela pessoa que “foi” e que não voltará mais, mas principalmente, por nós, que também vamos.

É que em geral, o ser humano, principalmente o jovem, compartilha de um sentimento ilusória e passageiro de onipotência que é da sensação de que nunca vai morrer, sentimento este que é ferido mortalmente quando um ente querido, ou algum conhecido (neste escala eu coloco também os artistas, principalmente aqueles que somos mais ligados) morre, pois velar o enterro do outro é velar nossa própria morte, que só é vivenciada justamente pela morte do outro.

Deve ser por isto que o sábio pregador de Eclesiastes já dizia a muito tempo que o... "Melhor é ir à casa de luto (velório) do que ir à casa onde há banquete (festa); porque naquela (no velório) se vê o fim de todos os homens, e os vivos (que estão no velório) o aplicam ao seu coração" (Eclesiaste 7:2).

Com a morte de Whitney hostoun se vai um pedaço de mim que a cada dia morre, pois “o envelhecer é o morrer todos os dias”... e o que fica é a certeza de que a fila anda, e mais cedo ou mais tarde, seremos o próximo a cair no abismo da morte!
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vaidade das vaidades, tudo vaidade


Por Edson Moura
Dias desses recebi a visita de um grande amigo, aliás, dois grandes amigos, e por muitas vezes, no calor de nossos debates, refleti sobre temas que preferi não compartilhar com eles naquele momento. Agora, depois de passada a euforia de ter meus companheiros Marcio e Esdras dividindo o mesmo teto comigo, resolvi escrever sobre o que pensei naquele momento.  Ponderações sobre a velhice, a morte e o “ser feliz” num mundo já há tempos dominado pela indústria da beleza e sua falsa promessa de bem estar e eterna juventude me fizeram pensar sobre como estou conduzindo minha existência.
 
Ouvi dizer, ou talvez tenha lido em algum livro ou revista que certa feita Sócrates foi indagado ao observar atenciosamente e com profunda admiração sobre as coisas que punha os olhos. Sócrates teria respondido que, na verdade examinava quantas coisas supérfluas existiam, e que, portanto, eram prescindíveis à sua felicidade. Hoje certamente essas coisas são muito banais. De modo que não se precisa sair a cata dos encantos da sereia. Dentro desse universo do que é supérfluo estão inseridas as bugigangas mais variadas do não envelhecimento.

A Indústria da beleza vem ditando em ritmo frenético o que é necessário para ser aceito nos espaços em que ela é fundamental. Mas o que seria o “belo”? Será que o belo é o mesmo que está retratado nos outdoors e nos manequins de grifes famosas? Para nós ocidentais chafurdados no capitalismo, os encantos de um Shopping Center faz todo o sentido, todas aquelas vitrines bem montadas nos seduzem e acabam nos obrigando a viver numa espécie de comunhão religiosa com o frívolo. Parece-me que nossa felicidade vem embrulhada num papel colorido de presente. Às vezes, nem percebemos que somos indivíduos, seres “para si” existentes, pois nos equiparamos àquilo que nos gera uma provisória sensação de bem estar.

Em 1931 Giovanne Reale disse: “Dê-me televisão e hambúrguer e não me venha com sermões sobre liberdade responsabilidade. Com este mesmo sentido, e parafraseando Nietzsche, Reale afirma que “a raiz de todos os males que atinge ao homem de hoje se encontra no exatamente Niilismo. O niilismo nietzschiano reduz-se à fórmula emblemática da morte de Deus, ou seja, do esmagamento da transcendência e de todos os valores metafísicos. Ora, se isto constitui-se uma verdade, se Deus está morto e com Ele toda dimensão transcendental, prevalece então o Materialismo e com isso toda a transvaloração dos ideais supremos.

Nessa perspectiva, o bem-estar material é deve ser tratado como prioridade, e isso gera, ou pelo menos contribui muito, para o mal-estar da civilização. Chamamos esse tipo de bem –estar de “felicidade artificial”, produzido pelo consumo desregrado que chega a se tornar um hiperconsumo bulímico que se alterna com as dietas de privações na busca de um corpo perfeito, mesmo que isso gere um culto dispendioso às vitaminas e dos oligoelementos.

Todos nós conhecemos a história de Narciso, que foi um jovem de extrema beleza, mas intoleravelmente soberbo e desdenhoso. Agrado de si mesmo e a todos os mais desprezando, levava a vida no serrado dos bosques coutadas, em companhia de um grupo de amigos para quem ele era tudo. E onde Narciso ia o seguia uma ninfa chama Eco. Assim vivendo chegou certo dia, por mero acaso, à beira de uma fonte cristalina e debruçou-se. Ao enxergar nas águas sua própria imagem, perdeu-se numa contemplação e depois numa admiração tão extasiadas de si mesmo que não pode afastar-se do reflexo que mirava e ali ficou paralisado, até que a consciência o abandonou. Foi então transformado numa flor que traz seu nome, a qual desabrocha no começo da primavera. É a flor sagrada das divindades infernais: Plutão, Prosérpina e Eumênides.

 Pobre Narciso, o culto a si mesmo o fez perder sua condição de existência, consumido pelo inebriado delírio de sua imagem. Não devemos nunca esquecer também que isto é apenas um detalhe quase sem relevância frente ao seu sinistro fim, ser transformado numa flor sagrada para as divindades do inferno. Lembremo-nos então que homens deste tipo tornam-se inúteis e imprestáveis para tudo na sociedade.

A Atual conjuntura do mundo, notoriamente marcado pela evolução científica, vem cada vez mais descobrindo meios de proporcionar prazer com a “felicidade artificial”. Sabe-se que a ciência tem um papel importantíssimo no retardamento da velhice, das doenças e como era de se esperar, da morte. Claro que isso não é ruim! É maravilhoso, desde que este objetivo não nos torne escravos de tais progressos. O homem é um ser temporal, finito. E quando não aceitamos esta condição, ou seja, quando ele faz de todo seu tempo um eterno retocar de maquiagem de suas rugas e cabelos brancos, de uma busca infinita pela beleza externa ditada pelos outdoors, acabará como Narciso: Inútil e imprestável.

Devemos lembrar que essa busca incessante pela beleza e negação da velhice é evidente nos padrões sociais mais elevados, pois sabemos, ou deveríamos saber, que são os ricos que detêm o poder aquisitivo para valer-se de tais panaceias. “Nos ricos o consumo torna-se histérico, maníaco pela autenticidade, pela beleza, pela cor pura e pela saúde. São eles quem dominam as vitrines, os grandes magazines, os pequenos mercados de pulgas. A mania de frivolidade torna-se mania de ninharias. Como seria a imagem do grande Sócrates em um Shopping Center? Qual seria sua reação?

Nessa corrida desesperada o tempo acaba por tornar-se o grande vilão. Uma voz que não se cansa de nos sussurrar: “Os teus dias estão passando!”. Então corremos para o espelho, verificamos se a calvície está aumentando, se mais um fio de cabelo ficou branco, se mais uma ruga traçou nosso rosto como o leito de um rio já seco, se a barriga já nos impede de amarrar o cadarço de nossos sapatos e assim por diante.  Rapidamente corremos para academia na tentativa frustrada de reparar a flacidez de nossos músculos já cansados de tanto trabalho pesado, ou, quando ainda não estão flácidos, o que é o meu caso, tentar impedir que isto aconteça. Desesperamo-nos, pois os dias estão passando, e o inimigo cruel não tem a menor intenção de parar de correr.

 A ampulheta da consciência diz isso. Uma batalha épica é travada com nosso ego, que diz: “Eu não quero envelhecer!”. Moisés num de seus salmos disse: “...Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos dias como um conto que se conta. Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou oitenta para os que tem mais vigor, entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa e nós voamos...". (Salmo 90.9-11). Ninguém experimentou isso melhor do que o poeta John Keats, que morreu aos 25 anos vitimado por uma tuberculose, lamentando resignadamente: “Se eu tivesse tido mais tempo!”.

Assim como a nossa morte, a velhice, por enquanto, é inevitável, aliás, podemos dizer que elas caminham lado a lado e de mãos dadas. Vez ou outra a morte chega de maneira paulatina, outras vezes o tempo a impulsiona, mesmo assim, por mais velho que estejamos, sempre acharemos que está cedo demais para abrirmos a porta e convidá-la para entrar. O segredo está no velho pensamento romano: “Lembra-te que és mortal!”. Não aceitar a velhice, e consequentemente a morte, é viver sobre o jugo de uma eterna angústia. A Angústia da luta contra o inevitável, isso gera desespero, pois em determinado momento percebemos que a luta é vã, então entramos em crise. Portanto, não adianta nos desesperarmos, velhice e morte, essas duas companheiras nos visitam todos os dias. Todos os dias a primeira nos bate à porta, enquanto a segunda fica na soleira esperando o dia em que, sorrateiramente invadirá nossa morada, com isso, quando ela entrar, nada mais podemos fazer a não ser, arrumar as malas e partir para o definitivo.

Só me resta recorrer a Salomão, o sábio: “Vaidade das vaidades, tudo vaidade”, e como disse o profeta Moisés no salmo bíblico: ...Nossa vida é um conto ligeiro.

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