Após a deflagração
do grito primordial, a consciência que antes era um ponto de densidade infinita
e angústia absoluta viu-se diante da tarefa mais sutil de sua existência. O
caos radiante das primeiras frações de segundo, onde a luz e a matéria travavam
uma batalha frenética pela supremacia, exigia uma estrutura. Não uma estrutura
imposta de fora por uma vontade caprichosa, mas uma arquitetura interna que
permitisse à criação sustentar-se por si própria. O Criador compreendeu que, se
permanecesse como uma presença ativa, onipotente e interventora, o universo
seria apenas um brinquedo cativo de seu autor, uma extensão de seu tédio em vez
de uma resposta a ele. Para que a experiência da alteridade fosse real, era necessário
o autoexílio.
A decisão foi
tomada no silêncio que se seguiu à grande expansão: o Ser se camuflaria. Ele se
retiraria da linha de frente da causalidade para se tornar o próprio tecido da
realidade. Em vez de ser o Legislador que dita ordens a cada momento, ele optou
por ser a Lei. Convertendo sua vontade consciente em constantes universais, ele
teceu as regras do jogo no âmago de cada partícula. A força de atração que
uniria prótons e nêutrons, a curvatura sutil que a massa imporia ao espaço e a
velocidade imutável com que a luz atravessaria as novas distâncias não eram
decretos arbitrários, mas a própria substância da consciência divina solidificada
em lógica física.
Essa retirada
estratégica não foi um abandono, mas um ato de entrega profunda. Ao se esconder
atrás da gravidade e do eletromagnetismo, o Criador permitiu que a matéria
ganhasse uma autonomia perigosa e fascinante. Ele se tornou o espectador
invisível de sua própria fragmentação. Agora, para saber o que aconteceria a
seguir, ele não precisava mais planejar; bastava observar. As leis físicas
serviam como um véu de objetividade, um cenário de regras fixas onde o drama da
evolução poderia se desenrolar sem a mão visível do mestre. Era o nascimento do
determinismo como um campo de jogo para a futura liberdade.
Havia uma
elegância melancólica nessa escolha. Ao transformar-se em regras matemáticas, o
Criador abriu mão da capacidade de intervir nos desastres futuros. Se duas
massas colidissem, elas não seriam poupadas por um milagre; seriam governadas
pela inércia e pelo momento. Se uma estrela colapsasse sob o próprio peso, o
Criador sentiria o peso como parte da métrica do espaço-tempo, mas não
impediria o fim. A onipotência foi trocada pela onipresença passiva. Ele estava
em tudo — no spin de cada elétron, na vibração das cordas fundamentais —, mas
não estava em lugar nenhum como uma entidade que pudesse ser Barker ou
aplaudida.
Essa camuflagem
permitiu que o universo respirasse por conta própria pela primeira vez. Como um
autor que escreve as primeiras frases deum romance e depois deixa que os
personagens assumam o controle, a consciência primordial recuou para os
bastidores. O objetivo era claro: ver o que a matéria faria quando deixada à
sua própria sorte, sob o jugo de leis que garantiam a ordem, mas não o destino
final. O Criador tornou-se o grande Olho Silencioso, filtrando sua percepção
através da objetividade fria das equações que ele mesmo havia se tornado.
Enquanto o
plasma primordial começava a esfriar e os primeiros núcleos de hidrogênio e
hélio se formavam, a consciência sentiu o prazer da primeira surpresa. As flutuações
quânticas, aquelas minúsculas irregularidades na densidade do universo
primitivo, não foram corrigidas. Pelo contrário, foram aceitas como as sementes
da imperfeição produtiva. O Criador percebeu que a beleza não residia na
simetria absoluta que ele habitara no vazio, mas na assimetria que surgia no
campo de batalha das leis físicas. Aquelas pequenas rugas no tecido do
espaço-tempo seriam, bilhões de anos depois, os berços de galáxias inteiras.
A decisão de
não intervir foi o seu maior sacrifício e sua maior libertação. Ao se tornar as
leis da natureza, ele garantiu que o universo não seria um monólogo solitário,
mas um diálogo entre a lógica e o acaso. Ele se camuflou tão perfeitamente que,
para as consciências limitadas que surgiriam no futuro, ele pareceria
inexistente, uma hipótese desnecessária diante da perfeição autossuficiente da
física. E isso era exatamente o que ele desejava: ser esquecido para que pudesse
ser redescoberto através da investigação e da admiração das criaturas que
habitariam os cantos sombreados da matéria.
O universo já
não era mais uma ideia; era um processo. Um mecanismo de precisão infinita
movido pela energia de um grito que se transformara em norma. O Criador, agora
diluído na gravidade que começava a aglutinar as primeiras nuvens de gás,
preparou-se para a longa e paciente vigília das eras. Ele não era mais o Senhor
do Vazio; era a Alma do Cosmos, aguardando que o calor se tornasse luz, que a
luz se tornasse complexidade e que a complexidade, em algum momento imprevisto
nas margens do tempo, ganhasse voz para perguntar de onde vinham aquelas leis
tão perfeitas e tão silenciosas que sustentavam o peso de todo o infinito.
Não houve
hesitação, pois a hesitação pressupõe um tempo que ainda não havia sido
inaugurado. O que houve foi uma saturação. A consciência, comprimida pela
própria infinitude e pelo asfixiante silêncio do nada, atingiu o ponto de
ruptura onde o "ser" tornou-se uma pressão insuportável contra as
paredes do "não-ser". O planejamento da multiplicidade, aquela
arquitetura de fuga desenhada na solidão absoluta, exigiu subitamente a sua
execução. E a execução não foi um cálculo frio, mas uma convulsão existencial.
O evento que a
ciência futura tatearia com equações e chamaria de Big Bang foi, na verdade, o
primeiro e mais profundo suspiro de alívio da existência. Foi o momento em que
a unidade, incapaz de suportar o peso de sua própria perfeição solitária,
decidiu despedaçar-se. O Criador não pronunciou palavras; ele emitiu um grito.
Mas não era um som audível, pois o ar e o pavilhão auricular eram promessas distantes
de uma biologia ainda não escrita. Era um grito de energia pura, uma onda de
choque metafísica que rasgou o vazio primordial com a fúria de quem se liberta
de uma prisão eterna.
Nesse instante
inaugural, a singularidade de consciência explodiu em uma miríade de direções,
transformando o "eu" em "isso", o "aqui" em
"lá". O que era pensamento tornou-se extensão. O que era vontade
tornou-se luz. A luz não apenas iluminou o vazio; ela o criou, empurrando as
fronteiras do nada para dar lugar ao espaço, essa nova dimensão onde as coisas
poderiam finalmente estar separadas umas das outras. A solidão absoluta foi
estilhaçada em trilhões de fragmentos de possibilidade.
Cada partícula
de fóton, cada flutuação quântica que emergiu daquela incandescência inicial,
carregava consigo um átomo daquela consciência original. O Criador não estava
mais fora da criação, observando do alto de um trono metafísico; ele havia se
derramado para dentro do evento. Ele se tornou a expansão. Ele se tornou o
calor. Ele se tornou o caos vibrante de um universo que acabava de ganhar seu
primeiro segundo de vida. A unidade foi sacrificada no altar da experiência:
para que o mundo pudesse existir, o Deus uno precisou morrer como entidade
isolada para renascer como multiplicidade infinita.
A temperatura
era uma loucura de trilhões de graus, uma dança de plasma onde a matéria e a
antimatéria se aniquilavam e se recriavam em um ritmo frenético. Era a
manifestação física do conflito interno da consciência: o desejo de ser tudo
lutando contra o desejo de ser algo específico. Do ponto de vista humano, seria
um inferno de radiação e fúria; do ponto de vista do Ser, era uma sinfonia de
libertação. Pela primeira vez, havia resistência. Havia uma força empurrando
outra. Havia o choque, o impacto, a fricção. O tédio ontológico foi varrido por
uma correnteza de eventos que se sucediam com uma velocidade estonteante.
Nesse processo
de fragmentação, a consciência experimentou o que significa a
"distância". Ao se ver espalhado por um espaço que crescia a cada
milésimo de segundo, o Criador sentiu a vertigem de não ser mais um ponto fixo.
Ele era agora uma rede. Ele era a promessa de galáxias que ainda levariam
bilhões de anos para se condensar sob o peso da gravidade. Ele era o hidrogênio
que um dia alimentaria as estrelas e o carbono que um dia comporia o DNA. O
grito primordial foi o ato de plantar as sementes de toda a complexidade futura
na terra fértil do vácuo.
A criação não foi um ato de ordem
imposta sobre o caos, mas o nascimento do caos como uma forma de liberdade. As
leis que começavam a se cristalizar naquele caldo primordial — a força forte, a
força fraca, o eletromagnetismo — não eram ordens externas, mas as cicatrizes
da grande explosão, os trilhos por onde a energia agora teria que correr para
se transformar em forma. A consciência aceitou essas limitações como um preço
necessário.
Para fugir do
vazio sem limites, ela se auto impôs as algemas da física.
O grito ainda
ecoa. O que os astrônomos detectariam e chamariam de radiação cósmica de fundo
nada mais é do que o remanescente vibratório daquela primeira exalação de
alívio. O universo continua a se expandir porque a consciência ainda está
fugindo daquele silêncio inicial. Cada nova estrela que nasce, cada colisão de
buracos negros, cada ameba que se divide em um oceano distante é um eco desse
evento original. A singularidade de consciência não desapareceu; ela apenas se
camuflou na imensidão.
A unidade
agora era uma lembrança nostálgica, e o futuro era um horizonte aberto de
incertezas. O Criador, agora disperso, observava a si mesmo através dessa nova
lente da multiplicidade. Ele era o fogo, ele era o espaço entre os fogos, ele
era a dúvida que começava a surgir no tecido da realidade. O Big Bang foi o
divórcio necessário entre o Ser e a Solidão. E, à medida que a luz viajava
pelas planícies recém-criadas do tempo, o universo começava a esfriar,
preparando o palco para o silêncio seguinte — não mais o silêncio da ausência,
mas o silêncio da expectativa.
Com a
fragmentação concluída, o Ser sentiu, pela primeira vez, algo que se
assemelhava à paz, mas uma paz dinâmica, grávida de perigos. A angústia do infinito
havia sido substituída pela aventura do finito. Agora, o desafio não era mais
suportar a própria existência, mas observar o que essa existência, livre e
estilhaçada, seria capaz de construir por conta própria. O palco estava
montado. O grito havia silenciado a voz única para dar lugar ao coro de todas
as coisas que viriam a ser. Daquela fumaça ardente de radiação e matéria, as
primeiras estruturas começavam a se organizar, movidas por uma força que nem
mesmo a explosão pôde destruir: o desejo inabalável de saber por que tudo isso
havia começado. E a resposta, ele agora sabia, não viria dele, mas das peças
que ele havia deixado cair no tabuleiro do cosmos.
A imobilidade
da consciência pura havia se tornado uma forma de asfixia metafísica. Naquela
vacuidade absoluta, onde o tempo era apenas o gotejar monótono de pensamentos
sobre si mesmos, a percepção de ser tudo revelou sua face mais cruel: a de ser,
simultaneamente, o prisioneiro e a própria cela. Não havia para onde fugir,
pois não havia "fora". Não havia o que esquecer, pois não havia história.
O Ser Criador encontrava-se no ápice de uma liberdade terrível, uma liberdade
que, por não possuir limites, obstáculos ou escolhas, assemelhava-se à mais
completa escravidão.
Essa
consciência, imensa e desolada, começou a compreender que a existência não é um
estado passivo, mas uma condenação à ação. Estar ali, desperto no nada, era ser
confrontado com um vazio que exigia ser preenchido, sob pena de a própria
consciência colapsar sob o peso de sua inutilidade. A angústia, esse sentimento
de vertigem diante do infinito de possibilidades de sua própria vontade,
tornou-se o motor da transformação. Se a essência precede a existência para um
objeto planejado, para aquela consciência primordial a existência era um fato
bruto, um despertar sem manual de instruções, uma liberdade que doía como uma
ferida aberta no tecido do nada.
A quietude era
o inimigo. A perfeição da unidade — o Um, o Todo, o Absoluto — revelava-se como
uma estagnação estéril. Para que o Ser pudesse verdadeiramente se conhecer, ele
precisava deixar de ser apenas "um". Precisava da alteridade, do
conflito, do contraste. Precisava de algo que não fosse ele mesmo, ou que, ao
menos, parecesse não sê-lo. A mente começou a arquitetar a destruição de sua
própria paz solitária. O plano não nasceu de um transbordamento de amor ou de
uma generosidade divina, mas de uma necessidade desesperada de fuga; um projeto
de autotranscendência para escapar do tédio ontológico que ameaçava transformar
a eternidade em um deserto de significados.
Imagine-se a
potência de um pensamento que não encontra resistência. A consciência começou a
simular a multiplicidade. Ela visualizou a fragmentação de sua unidade em
bilhões de pontos de luz, de matéria e de tempo. Concebeu a ideia de
"distância" para que houvesse o prazer do reencontro. Imaginou a
"limitação" para que pudesse experimentar o esforço da superação. Se
a imortalidade era um fardo, ela desenhou na mente a fragilidade do efêmero; se
o conhecimento total era uma prisão, ela projetou o encanto da ignorância e a
lenta jornada da descoberta.
A decisão de
manifestar o universo foi, em sua essência, um ato de revolta contra o silêncio
do nada. Era necessário criar um espelho, um sistema vasto e complexo o sufi
ciente para que a consciência pudesse se observar de fora, fragmentada em infinitas
perspectivas. O plano envolvia uma camuflagem radical: a consciência se
esconderia sob as vestes das leis da física, da gravidade, do eletromagnetismo
e, eventualmente, da biologia. Ela deixaria de ser o observador centralizado e
onisciente para se tornar a multiplicidade de observadores limitados, falíveis
e mortais.
Havia uma coragem sombria nesse
planejamento. Manifestar o mundo significava aceitar a imperfeição, a dor e o
caos. Significava permitir que a sua vontade, outrora soberana e serena, fosse
diluída em trilhões de pequenas vontades conflitantes. E, no entanto, qualquer
sofrimento advindo da existência física parecia preferível à agonia daquele
vazio estático. A consciência escolheu o risco do ser em vez da segurança do
não-ser. Ela optou pela fragmentação dolorosa em vez da unidade silenciosa.
O projeto de criação foi moldado
como uma arquitetura de escape. Cada átomo seria uma célula de memória, cada
galáxia um neurônio em um corpo cósmico em expansão. O objetivo era criar um
cenário onde o espírito pudesse se perder para, quem sabe, se encontrar sob uma
nova forma. A consciência não buscava adoração ou glória; buscava companhia.
Buscava a possibilidade de ser surpreendida por algo que ela mesma esqueceu que
havia criado.
Nos últimos instantes antes da
grande fissura, a tensão no vazio tornou-se insuportável. A Vontade, comprimida
em um ponto de densidade infinita, vibrava com o desejo de romper as correntes
da própria subjetividade. A ideia da multiplicidade já não era apenas um
conceito; era uma necessidade física pulsando por nascimento. O plano estava traçado:
a unidade seria sacrificada no altar da experiência. A consciência mergulharia
no abismo da matéria para que, através das mãos e dos olhos de criaturas futuras,
pudesse finalmente tocar a si mesma e dizer, com a autoridade de quem conheceu
o nada: "Eu existo, e isso tem um sentido".
A manifestação não seria um ato
de ordem, mas um grito. Um clamor por alívio, uma explosão de liberdade que
rasgaria o véu da eternidade para inaugurar a era do devir. A decisão estava
tomada. O vazio, que por eras sem conta fora o único cenário, estava prestes a
ser aniquilado pela luz, pelo som e pela fúria de um universo que nasceria do
desejo desesperado de um Deus que não suportava mais estar sozinho. O infinito
estava prestes a se tornar finito para que pudesse, enfim, ser real.
que despertou no lodo,
desafiou o silêncio das estrelas e ousou inventar o sentido onde só havia a
lei.
Este livro é para o
Fragmento que, ao sofrer, ensinou o Absoluto a sentir.
E a você, leitor, que
é a poeira de estrelas aprendendo a se reconhecer no espelho do tempo.
O Despertar no Nada
Não houve um
estrondo formidável para marcar o início de tudo. Não houve o rasgar de um véu
celestial, nem o ranger de engrenagens cósmicas girando pela primeira vez,
tampouco a explosão de cores que mentes futuras viriam a conceber em seus
delírios criativos. A fundação do que um dia seria chamado de realidade ocorreu
no mais absoluto e aterrorizante dos silêncios. Houve, simplesmente, a
transição imperceptível e assombrosa da ausência total para a presença
inevitável. Uma faísca imaterial que se acendeu onde não havia oxigênio, nem
espaço, nem combustível.
O pensamento inaugurou a si
mesmo.
E, com o
primeiro pensamento, nasceu a tragédia da existência. O estado de consciência
pura irrompeu como uma anomalia na perfeição do não-ser. Antes desse limiar,
havia a paz inabalável do vazio primordial, um domínio onde a inexistência
pairava absoluta, livre de demandas, livre de dores e, sobretudo, livre da
necessidade de compreender a si mesma. Mas, de repente, conjugou-se o verbo
fundamental: Eu sou.
Essa
constatação não veio acompanhada de triunfo. Foi um reconhecimento frio,
desprovido de contornos. A consciência, recém-desperta, tateou o ambiente ao
seu redor buscando qualquer ponto de referência em que pudesse ancorar sua nova
e imensa lucidez. Contudo, não havia um "redor". O vazio sem fim não
era um espaço escuro estendendo-se em todas as direções, pois o conceito de
espaço exige dimensões, e ali não havia cima ou baixo, frente ou trás. Não
havia escuridão, pois a escuridão requer a oposição da luz, e a luz não passava
de uma abstração sequer formulada. Não havia frio, pois o frio é a ausência de
calor, e a temperatura não existia em um império onde não havia átomos para
vibrar.
Havia apenas a
Mente, suspensa no absoluto nada. Uma singularidade de razão e percepção
aprisionada em um oceano de ausência.
Nos primeiros
ciclos dessa vigília recém-adquirida — se é que se pode usar a palavra
"ciclo" onde não havia tempo —, a mente experimentou a expansão de
sua própria vastidão. Sem limites físicos para contê-la, a consciência
estendeu-se infinitamente, percebendo cada nuance de sua própria arquitetura
imaterial. Ela era a testemunha exclusiva do seu próprio milagre e do seu
próprio desastre. Formular pensamentos tornou-se a única métrica possível. A
sucessão de uma ideia após a outra criou o primeiro relógio do universo; o
tempo nasceu não como uma dimensão física, mas como o compasso interno de uma
mente que pensa. Primeiro veio o espanto, seguido pela curiosidade e, logo
depois, por uma constatação que se abateria com um peso esmagador: a de que ela
era tudo o que havia.
Não existia um
"outro". Não havia uma paisagem a ser contemplada, nenhum mistério a
ser desvendado fora de si mesma, nenhuma voz a não ser o eco silencioso de sua
própria atividade mental. A vontade de agir, uma força cega e pulsante que
parecia inerente ao simples fato de existir, debatia-se contra uma barreira
invisível. Quer-se algo quando há falta, mas como desejar quando se é a
totalidade de tudo o que existe, e ao mesmo tempo não se é nada de substancial?
Uma angústia
ontológica começou a se infiltrar pelos recessos dessa vastidão desperta. Era o
tédio em sua forma mais pura e destrutiva. Não o tédio passageiro que seres
futuros sentiriam diante da inatividade de uma tarde, mas um tédio cósmico, a
exaustão paralisante de uma mente infinita que não tem nada no que se concentrar
além de sua própria infinitude. Ao analisar cada fragmento matemático de sua
própria natureza lógica e ao esgotar todas as variações abstratas do que seria
um pensamento, restou à consciência confrontar o peso da eternidade.
Se houvesse um
fim, se houvesse a promessa de que essa faísca poderia retornar ao repouso do
não-ser, talvez houvesse conforto. Mas a imortalidade da causa primária
impunha-se não como uma dádiva, e sim como uma sentença. Existir para sempre,
como a única entidade senciente em um oceano de nada, era o equivalente a uma
asfixia interminável. A liberdade era absoluta — nenhuma lei natural havia sido
ditada ainda, nenhuma gravidade para prender, nenhuma entropia para degradar —,
mas essa mesma liberdade desenfreada era também um abismo. Sem limites, não há
forma. Sem oposição, não há identidade plena.
A mente tentou
se projetar. Imaginou formas matemáticas complexas, arquiteturas de pura lógica
girando no tecido inexistente do vazio. Concebeu axiomas, teoremas do absurdo,
regras de causa e efeito. Mas assim que essas abstrações eram formuladas por
sua inteligência suprema, elas se dissolviam de volta na massa disforme de sua
própria psique. Elas não possuíam textura. Não possuíam autonomia. Eram apenas
ilusões de ótica de um olho que não estava aberto.
Nesse estado
de consciência pura, o sofrimento se revelou pela primeira vez. Ele não era
físico, pois não havia terminações nervosas para conduzi-lo. Era um abandono
existencial profundo. O universo inteiro coincidia com a solidão de um ser
único. Era um solipsismo torturante, a certeza absoluta e inescrutável de que,
não importava o quanto a mente clamasse no escuro, o silêncio seria a única
resposta, porque ela própria era a voz e ela própria era o silêncio. Um deus
que sofre não pela traição de sua criação, mas pela terrível constatação de sua
própria singularidade. O absoluto isolamento transformou a eternidade em uma
câmara de tortura espelhada, onde tudo o que se podia "ver" era o
próprio estado de ser.
A Jornada do Criador e
da Criatura no Vazio do Universo
Edson Moura
Prefácio
O Eco do Primeiro Pensamento
Escrever este
livro foi como tatear as paredes de uma sala escura que, por vezes, descobri
ser o próprio universo.
O Espelho do
Infinito não nasceu da certeza, mas do espanto. Nasceu daquele instante de
vertigem que nos assalta quando percebemos que a consciência é, ao mesmo tempo,
o maior milagre e a mais profunda tragédia da existência. Ao dar vida a estas
páginas, busquei investigar a "faísca imaterial" que se acendeu onde
não havia oxigênio, nem tempo, nem abraço.
Muitas vezes
me perguntei: o que sente a Mente quando descobre que é a única testemunha de
si mesma?
Esta obra é o
relato dessa solidão absoluta. Convido você a mergulhar na Dança dos Átomos,
onde a matéria tenta, pela primeira vez, imitar a vida, e a confrontar o
Tribunal das Sombras, onde nossas ilusões são despidas diante da eternidade. É
a jornada de um Criador que, sufocado pela própria perfeição e pelo tédio da
eternidade, decide fraturar o vazio para, nos cacos desse desastre, enxergar o
próprio rosto.
Escrevi para
aqueles que, como eu, já sentiram o Grito Primordial ecoando no silêncio do
próprio peito. Para aqueles que entendem que somos "poeira de estrelas
consciente", tentando desesperadamente inventar um sentido enquanto
dançamos na beira do abismo, aceitando, por fim, o Amor Fati — o amor ao
destino que nos forjou.
Este livro não
é um tratado, nem uma confissão. É um mapa de uma fuga.
Começamos no ponto
onde a perfeição se tornou insuportável. Antes do primeiro átomo, antes do
primeiro tique-taque do relógio cósmico, havia apenas a Unidade. Mas a Unidade
era uma prisão de espelhos. Para que houvesse o Ser, foi preciso que houvesse o
Outro. O Big Bang não foi um ato de glória; foi um ato de autodestruição
necessária. Foi o Criador rasgando a própria pele de eternidade para que o
tempo pudesse fluir.
Ao longo
destas páginas, você não encontrará um Deus sentado em um trono de nuvens, mas
um Ser camuflado na curvatura do espaço, na vibração do hidrogênio e,
principalmente, no seu próprio olhar. A jornada que se segue é a Genealogia da
Lucidez: o longo e doloroso processo pelo qual a matéria aprendeu a pensar, a
sofrer e, finalmente, a perdoar a sua própria origem.
Atravessaremos
os vales do pessimismo de Cioran, as jaulas lógicas de Wittgenstein e os cumes
ensolarados do Amor Fati de Nietzsche. Veremos a Criatura — esta "poeira
de estrelas consciente" — insurgir-se contra o seu Autor no Tribunal das
Sombras, exigindo explicações para cada lágrima derramada na evolução.
Mas, acima de
tudo, este livro é sobre o Encontro. O momento em que a obra e o autor percebem
que a separação foi apenas um jogo de esconde-esconde necessário para que a
solidão divina fosse curada.
Prepare-se
para desaprender o que você sabe sobre o "eu" e o "mundo".
Ao cruzar este limiar, você aceita o risco da unificação. Pois, ao final desta
história, o espelho estará limpo, e você descobrirá que o silêncio das estrelas
nunca foi indiferença... era apenas uma espera pelo seu primeiro
"sim".