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terça-feira, 11 de março de 2014

Alguns rabiscos sobre a teoria de Freud


Marcio Alves
 
Quero compartilhar alguns rabiscos meus freudianos, baseado nas concepções teóricas fundamentais psicanalíticas de Sigmund Freud, visando trazer um resumo bem objetivo, pratico e esclarecedor de suas principais teorias.
 
Freud vê todos os indivíduos como uma natureza humana inata que o determina, vivendo sempre na tensão constante entre as exigências dos impulsos instintivos versus a realidade social que cobra comportamentos adequados na relação e interação social. Desenvolveu sua mais importante teoria sobre o inconsciente que é o que marca, distinguindo a psicanálise das demais teorias psicológicas. Dando ênfase também no desenvolvimento psicossexual infantil, sendo estes dois conceitos os principais na teoria psicanalítica freudiana.
 
Segundo a visão Freudiana, o ser humano é possuidor de uma natureza inata que é determinada e regida pelas pulsões de morte e vida, que seriam os impulsos sexuais, presente como energia vital desde o nascimento, e os impulsos agressivos, mais a experiência de vida de cada sujeito, desenvolvida ao longo da infância, onde se dá o complexo de Édipo – onde a criança desenvolve um vivo sentimento de afeição pelo genitor do sexo oposto e grande inimizade pelo do próprio sexo, a quem deseja eliminar como a um rival, isto tudo inconscientemente.
 
Para Freud o mundo é civilizado através de leis que governam os relacionamentos humanos, contrapondo a natureza instintiva animal do homem, que por viver em sociedade aprende internalizando estas leis e proibições, de como se deve comportar, gerando assim um mal estar e conflito no homem, já que há um abismo existente entre as demandas dos próprios impulsos, agressivos e sexuais, advindos de sua natureza com as do meio social.
O aparelho psíquico do homem foi divido por Freud em duas tópicas, chamadas de topográfica e estrutural. Na primeira, a topográfica, o consciente, pré-consciente e inconsciente. Já na segunda, a estrutural, o id, ego e superego.
 
A diferença básica entre consciente, pré-consciente e inconsciente é que consciente é a parte psíquica de nosso aparelho que recebe os dados, organizando-os, do mundo externo e interno do sujeito, constituindo uma pequena parcela da mente. Já o pré-consciente situa-se no meio, entre o consciente e o inconsciente, e, refere-se aos nossos pensamentos e lembranças que não são conscientes em um primeiro momento, numa dada circunstancia, mas que podem ser evocados ou chegarem de maneira espontânea e livre a consciência. E por ultimo, o sistema inconsciente, que foi a grande e revolucionaria descoberta de Freud, o conceito mais fundamental da psicanálise, que consiste na maior parte da vida psíquica, onde se localiza as principais idéias, que são as representações de impulsos, que foram reprimidas, que o sujeito não tem acesso consciente, porém, vale lembra que não foram esquecidas, e tão pouco ainda perdidas, e que tem enorme influencia na vida consciente.
Já o aparelho psíquico estrutural é formado pelo id, que é totalmente inconsciente, instintivo e regido pelo principio do prazer buscando a satisfação a qualquer custo, sua relação geralmente é muito conflituosa com o ego que sempre regido pelo superego, busca uma forma mediadora na realidade de, às vezes, satisfazer de maneira permitida, outras vezes de inibir ou reprimir, os anseios do id sem desobedecer às leis impostas pela sociedade que são justamente internalizadas pelo superego.
A psicanálise freudiana é uma das mais importantes teorias sobre o funcionamento do aparelho psíquico, como também compreensão do mundo e da natureza humana, contribuindo de maneira enriquecedora para a psicologia, no trabalho de compreender e ajudar o ser humano em seus conflitos internos e externos.

 
REFERENCIA BIBLIOGRAFICAS

Freud, S. – O mal-estar na civilização, Vol. XXI, Rio de Janeiro: Imago, Ed. Standard Brasileira das Obras Completas, 1974, p. 81-171.

Freud, S. (1923) O ego e o id. Trad. sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v.19, p.13-80. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.

Freud, S. (1915) O inconsciente. In___ Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Trad. sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v.14, p.183-202.

sábado, 10 de novembro de 2012

As analises e previsões de Freud sobre a religião (estaria ele certo?)




Por: Marcio Alves

Acabei de ler “O futuro de uma ilusão” de Freud, e, em cima deste texto, quero de forma bem resumida e objetiva, expor a opinião do pai da psicanálise, que foi sem duvida alguma, um dos maiores homens da historia da humanidade, sua analise e previsão sobre a religião especificamente, (pois o texto aborda outras questões igualmente relevante) como também, dar minha opinião sobre os seus apontamentos...estaria Freud totalmente certo?

Freud inicia esclarecendo que para ele, o processo civilizatório, que levou e elevou o homem de “animal” primitivo bárbaro, para o homem moderno, tal qual conhecemos hoje, foram; “(1) o conhecimento e a capacidade que o ser humano adquiriu com a finalidade de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidade humanas. Por outro, inclui todos (2) os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível” (Freud)

Em todo esse processo de “humanização”, não foi somente o homem que se “humanizou” como sua vida em grupo, mas também, segundo Freud, as forças temíveis e desconhecidas da natureza, principalmente a morte, pelos nossos ancestrais, fazendo das mesmas, pais e deuses, criando crenças, que mais tarde se tornaram religiões. O que Freud quer dizer, segundo minha opinião, é que, todas as realizações de nossa civilização, incluindo aqui, principalmente todas as religiões e crenças, nasceram do impulso/instinto de autodefesa contra as forças opressivas e assustadoras da natureza.

Neste ponto, quero que você meu caro leitor pense comigo duas questões igualmente importantes:
O primeiro é que os deuses, como anjos, demônios e espíritos, tem características humanas, não seria isto uma das “provas” incontestáveis que, mais do que Deus dizer ao homem “faço-te a minha imagem e semelhança”, foi o homem quem criou os deuses e todos os espíritos a sua “imagem e semelhança”, contando (inventando) depois, que foram os deuses quem disseram isto, sendo perpetuada esta crença, de tal forma, que hoje, isto foi “escrito” em tabuas de mármore, e, é aceito sem nenhum questionamento pelos religiosos?

E, a segunda, e não menos importante, é a questão de que Freud deixa claro, de forma inequívoca no seu texto, que o medo e o desejo são os dois fatores primordiais que fizeram tantos os homens criarem as crenças nos deuses como protetores, e na vida depois da morte como recompensa e consolo, como também mais ainda a necessidade de acreditar nisto tudo, daí, a maioria dos religiosos quando são confrontados por questionamentos sobre sua religião e crença, terminarem o dialogo com a frase que virou jargão popular: “se você não acredita, eu creio, não importa o que você me diga, eu nunca vou deixar de crer, até porque, a crença me faz me sentir bem, e, isto é o que importa”.

Ora, se Freud estiver certo neste ponto, como “acho” que esta, se a crença nasceu e se mantém do medo do desconhecido que era até então as forças da natureza para nossos primitivos ancestrais, como ainda é a morte para muitos de nós, juntando se a isto, o desejo de acreditar nessas mesmas crenças para aplacar o medo, a angustia, o sentimento de desamparo que todos nós compartilhamos, de nossa real finitude e insignificância, o homem, só poderia mesmo crer, seguindo alguma religião, embora, estando este medo e desejo no inconsciente, é totalmente lógico e racional, até porque, a razão é serva dos nossos desejos, medos e vontades, como disse Schopenhauer.

Freud chega a afirmar que “(...) se voltarmos nossa atenção para a origem psíquica das idéias religiosas. Estas, proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados de experiência ou resultados finais de pensamento: são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos. Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção - de proteção através do amor -, a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor dos perigos da vida” (Freud)

Por isso que “Ilógico”, “incoerente”e “loucura” mesmo é ir contra tudo isto, toda esta crença milenar, crida e sustentada pela maioria, contra nosso medo, desejo e desamparo mais intimo, não crendo em nenhum Deus, não seguindo nenhuma religião e crença, assumindo nossa mais pura condição humana de duvida, de incerteza, mas, de coragem de caminhar pela existência sem as muletas, manuais e mapas da religião.

Freud acreditava que mesmo a “deusa” e “toda poderosa” ciência não seria suficiente para acabar de vez com a religião, como se iludem muitos ateus militantes que desejam o fim da religião, porque psiquicamente, a ciência nunca poderá substituir a função e papel da religião no psiquismo humano, e, neste sentido novamente eu tenho que concorda com o mestre e pai da psicanálise, embora, através da ciência o homem moderno atual diferem e muito do antigo religioso, porque aprendeu com o avanço e disponibilidade do conhecimento, a ser mais criterioso e racional, mas, isto ainda, não determina o fim da religião, na verdade, eu já escrevi algumas vezes, que a religião nunca deixará de existir, por vários fatores expostos nesta postagem como em outras, e, tomará mesmo que nunca acabe, pois mesmo sendo ateu, como estudante de psicologia vejo significado e importância da religião para muitas pessoas, alem do fato de que o mundo seria sem graça e perderia o seu colorido se todo mundo se tornasse ateu, pois a pluralidade e diversidades de ideias e crenças tornam o mundo para o ser humano, “infinito” em suas possibilidades e escolhas, como são “infinitos” a subjetividade e particularidade de cada individuo.

E para terminar, esta postagem que já está ficando muito extensa, um pensamento de Freud que discordo, ou melhor dizendo...que não concordo inteiramente, e, isto não com o que ele irá dizer, mas sim com o que esta nas “entrelinhas”, pois ele afirmou que: “A religião, é claro, desempenhou grandes serviços para a civilização humana. Contribuiu muito para domar os instintos associais. Mas não o suficiente. Dominou a sociedade humana por muitos milhares de anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, confortá-la, reconciliá-la com a vida, e transformá-la em veículo de civilização, ninguém sonharia em alterar as condições existentes” e, mais: “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar” (Freud)

O que eu discordo não é com o que está escrito, mas antes com a possível ideia interpretativa, que para mim não passa de ilusão, fantasia e sonho, de que o homem é infeliz com a religião, mas de que possivelmente poderá ser feliz com a ciência, pois na verdade, nem religião e nem ciência consegue dar conta de todo este desamparo e finitude própria, inato do homem, que é apenas humano, e como humano, não passa de um ser frágil, carente, desamparado e infeliz, porém, a ciência e em alguns momentos a religião, podem colaborar em amenizar o sofrimento humano, mas nunca, em hipótese alguma, acabar de vez, pois uma vida sem sofrimento só “existe” mesmo no céu das fantasias mais desejantes e ilusórias das promessas existentes nas crenças religiosas...se assim fosse, bastaríamos então todos morrer para gozarmos deste paraíso, mas como no fundo no fundo ninguém acredita de verdade, ninguém quer morrer para “pagar pra ver”, deixemos então o “céu para os anjos” e aproveitemos nossa curta caminhada em vida na terra.


Texto baseado no “O futuro de uma ilusão” de Freud

domingo, 29 de abril de 2012

Falsos Profetas (parte 4)

Será que escrevo essas coisas porque sou ateu? Ou sou ateu porque me interessei em aprender sobre essas coisas? A verdade é que não importa. Não sou o fim em mim mesmo. Estou em constante metamorfose e não pretendo parar. Muitos sabem que já fui um crédulo por muito tempo, mas hoje penso diferente. Alguns amigos insistem e dizer que foi alguma decepção com Deus ou cm a religião que me fizerem um crítico ferrenho da fé. Mas isso também não importa. O que importa são os resultados. Outros me chamam de reducionista, por elevar a ciência a um patamar em que tudo se explica, ora, que dizer então de quem crê em Deus como criador de tudo e de todos? Acredito que isso sim é reducionismo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Falsos Profetas (parte 2)





Depois de ouvir falar com seus pacientes de supostas curas pela fé, um médico de Minnesota chamado William Nolen passou um ano e meio tentando analisar os casos mais assombrosos. Havia alguma prova médica de que a enfermidade estivesse realmente presente antes da “cura”? E se existisse, tinha desaparecido realmente depois da cura? Ou era só o que diziam o milagreiro ou o paciente? Descobriu muitos casos de fraude, incluindo a primeira revelação de “cirurgia psíquica” da América. Mas não encontrou nenhum exemplo de cura de nenhuma enfermidade orgânica séria (não psicogênica). Não havia casos de cura, por exemplo, de cálculos biliares ou artrite reumatoide, muito menos de câncer ou enfermidades cardiovasculares. Quando se rompe o baço de um menino, apontava Nolen, a recuperação é completa se o submetermos a uma simples cirurgia. Mas, se levarmos o menino a um pastor milagreiro, ele morrerá em um dia. A conclusão do Dr. Nolen é a seguinte:

domingo, 6 de novembro de 2011

A cibernética lacaniana

Por Edson Moura
Existe um texto de Lacan com o nome de “Psicanálise e Cibernética”, ou “Acerca da Origem das Linguagens”, com data de Junho de 1955, que ainda é pouco estudado pelos historiadores de Psicanálise. Nele Lacan propõe uma interessante aproximação entre a sua teoria do Inconsciente e a Cibernética, uma disciplina então nascente e que décadas mais tarde iria se tornar a nossa já conhecida “Inteligência Artificial”. Curiosamente, nem mesmo os mais competentes biógrafos de Lacan, como, por exemplo, Elizabeth Roudinesco, sequer mencionam essa conferência.

Por qual motivo omitiram esse pensamento lacaniano acerca da Cibernética? Talvez essa seja uma atitude intencional de alguns psicanalistas que vêem na Inteligência Artificial e na Ciência Cognitiva algo necessariamente oposto à Psicanálise. A ciência Cognitiva é demonizada, de forma caricatural, como uma espécie de teoria diabólica que visa, em última análise, transformar os seres humanos em máquinas. Essa tendência aparece na obra de Roudinesco, especialmente no livro “Por que a Psicanálise?”, que tem passagens ácidas no que se refere à Ciência Cognitiva.

Mas outra hipótese que o texto dessa conferência revela-se extremamente complexo para aqueles que não têm formação em Ciência da Computação. Nele, por exemplo, aparecem desenhos em tabelas que parecem, à primeira vista, estranhos. Eles são, na verdade representações de portas lógicas de um computador.

As portas lógicas são uma espécie de representação elétrica do pensamento humano. Se assumimos que quase todo pensamento é constituído de proposições e que elas são, invariavelmente, ou verdadeiras ou falsas, podemos construir um circuito elétrico que as represente. A idéia é que “verdadeiro” ou “falso” podem corresponder, reciprocamente, a 0 e 1, e estes, por sua vez, a um circuito fechado (no qual passa corrente) ou um circuito aberto (no qual não passa corrente). É da idéia cotidiana de que nosso raciocínio são proposições verdadeiras ou falsas que são constantemente combinadas na forma de um cálculo que surge a semelhança entre circuitos elétricos e mentes ou, em última análise, entre mentes e computadores.

Mas por que Lacan estaria preocupado com isso? A Razão parece estar no fato de que há outro conceito fundamental que norteia a Ciência da Computação e a programação de computadores: a “recursão”.

A recursão é um tipo de processo no qual um de seus passos envolve sua repetição completa. Uma forma humorística de definir a recursão é dizer que “as bolachas vendem mais porque são fresquinhas e são fresquinhas porque vendem mais”. O que se percebe nesta frase é um procedimento de repetição, no qual, se não houver uma instrução especifica para parar, continuará assim por um tempo indeterminado. Ou seja, a recursão é o procedimento em círculo, sem que se coloque um fim para ele.

Procedimentos recursivos são a base da construção de algoritmos (programas). Mas isso ocorre não somente com as linguagens artificiais utilizadas pelos computadores. Nossa linguagem natural também é recursiva. Na década de 1950, Noam Chomsky propôs essa hipótese. Quando escrevemos uma sentença, podemos sempre acrescentar uma outra a ela, e assim por diante, num processo infinito. “Há um garoto sentado na ponte” pode se transformar em “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte” e “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte criando coragem para pular” e assim por diante. A linguagem remete à própria linguagem e este é um procedimento circular repetitivo.

Ora, Lacan acompanhava os progressos da Cibernética nos anos 50 e, possivelmente, conhecia os trabalhos de seus pioneiros, entre eles o de Norbert Wiener, que estava profundamente envolvido com a programação de computadores. Da mesma maneira, os trabalhos de Chomsky acerca da recursão em linguagens naturais também deviam ser conhecidos por Lacan.

Se a linguagem é recursiva, nos diz Lacan, o inconsciente também o será, já que está estruturado na forma de uma linguagem. É daí que vem o caráter repetitivo do inconsciente, o fenômeno da repetição inexorável, identificado por Freud na sua obra de maturidade. A repetição em um processo neurótico é praticamente interminável, a não ser que em algum momento haja uma instrução para interrompê-lo, como pode ocorrer na psicoterapia. A neurose é um procedimento recursivo e, para explicar sua natureza, teríamos de buscar um modelo cibernético para ela. O neurótico é uma máquina “em looping” e é isso que o aproxima da pulsão da morte. Essa é, em síntese, a mensagem da conferência de Lacan transcrita no seminário II.

Talvez devamos, então, reconsiderar a posição da Psicanálise diante da Inteligência Artificial e da Ciência Cognitiva. Talvez Roudinesco esteja excessivamente à margem esquerda do rio Sena para poder vislumbrar o interesse de Lacan por essas disciplinas, que na década de 1950 , já eram pesquisas científica de ponta. Mas para reconhecer isso será preciso abandonar preconceitos que permeiam a historiografia da Psicanálise. Provavelmente são eles que não permitem que os historiadores da Psicanálise consigam vislumbrar a verdadeira dimensão dessa conferência de Lacan e prefiram não mencioná-la.


Fonte: Revista Filosofia edição 64 pág 37 (João de Fernandes Teixeira, Ph.D pela University of Essex Inglaterra/Professor titular na Universidade Federal de São Carlos site www.filosofiadamente.org)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quando Nietzsche chorou - Irvin D. Yalom

Resumo do livro:

No último quarto do séc. XIX em Veneza, no café Sorrento, tem lugar um encontro entre o médico austríaco, Josef Breuer e a insinuante jovem russa Lou Salomé, que promoveu uma série de outros encontros entre aquele e Friederich Nietzsche.

Explicadas as motivações tecidas à volta de um triângulo amoroso entre si, Paul Reé e Nietzsche, e porque a humanidade não poderia arriscar-se a perder o seu mais proemitente filósofo, Lou materializa a primeira entrevista deste com Breuer, por intermédio do amigo comum Overbeck, com vista à descoberta da origem do mal, que vinha atacando o filósofo, o qual, é mantido na ignorância desta sua diligência, por aquela saber o que este pensa das ajudas desinteressadas.

Horas de intensa observação deram a conhecer a Breuer a personalidade obstinada e orgulhosa de Nietzsche. Como tratar alguém que recusa ajuda? Porque recusa?

Frustrado o acordo para o tratamento, despediram-se friamente. Mas uma recaída do filósofo retoma o contato com Breuer que lhe ouve, em estado quase comatoso um inesperado mas inconsciente pedido de ajuda. Aberta a brecha, Breuer avança, decidido a fazer Nietzsche ceder às suas tentativas de penetração na sua, até então, inviolável psique. Mantinha-se, no entanto, inexpugnável o filósofo a quaisquer intromissões na sua fortaleza interior. Sucedem-se diálogos de prospecção psíquica, tão duros como inteligentes que os conduzem a um acordo peculiar.

Assentam, então num tratamento recíproco. Breuer, autor da iniciativa, aceita como clínico tentar debelar as enxaquecas de Nietzsche, e este como médico da mente, aceita tratar Breuer. Homem realizado na sociedade vienense, pela excelência da sua ciência e do seu profissionalismo, Breuer conquistou a fama pela descoberta da importância do ouvido interno para o equilíbrio.

Tendo aplicado o mesmerismo a Bertha, uma jovem lindíssima, sua paciente, com uma grave histeria, criou problemas pelo tempo passado junto da doente, que fizeram nascer em Mathilde, sua esposa, ciúmes inconvenientes. A passar dos quarenta anos, Breuer pergunta-se se era aquilo por que tinha lutado. Um sonho que recorrentemente o perseguia, e de que já havia falado com o seu amigo Freud, curioso destas fitas cerebrais, piora a situação pelo que poderia significar. Mas com Bertha afastada da sua vida Breuer sente começar a descer para um subterrâneo desconhecido.

A argúcia argumentativa de Nietzsche, calça botas de soldado com que lhe pisa a estrutura familiar laboriosamente construída. E confronta-o, sem piedade, com a paternidade das escolhas assumidas. Então compreende! Não havia sido Breuer a escolher o seu caminho. Sempre na esteira dos outros. A carreira, os amigos, o bem-estar, a mulher tinham-no moldado aos seus interesses. A sua genuinidade dormia sob o anestésico da sociedade. Sentiu um ferrão a rasgar o tórax. As escolhas não tinham sido suas. Foram eles que lhe apontaram os caminhos. Como a um cavalo condicionado por antolhos. E de repente tudo se desmorona.

Nietzsche médico das almas, cruel cirurgião da mente, tendo penetrado nos labirínticos meandros da psique de Breuer, desperta-lhe a força da idiossincrasia própria de um ser irrepetível e único, pelo que começa a sentir-se como o caçador caçado. Equipado com as armas necessárias à superação de si, Nietzsche encaminha Breuer para um exercício de auto-consciência, o qual, induzido por hipnose pelo seu amigo Freud, consegue figurar Bertha, na intimidade com um outro clínico, dessacralizando assim momentos considerados como possíveis unicamente consigo. Imagina-se, então, profundamente ridículo. A catarse funcionou. Breuer recuperou-se e tornando-se naquilo que é assumiu-se como autor do seu futuro. Sorridente, afirma-se curado para desgosto de Nietzsche que assim perde mais um amigo.

Nietzsche, a maior parte do ano doente, acometido por doenças do foro psiquiátrico acompanhadas de graves manifestações somáticas, era um homem deprimido. A atravessar desertos de solidão. Uma solidão altiva, desejada, própria dos fortes. A sua imaginação febril, afectada pelo rompimento com Wagner, ficou fundamente abalada com as notícias da irmã Elizabeth sobre o que Lou fazia correr sobre ele na sociedade. A traição de novo a corroer-lhe as entranhas. Está condenado a viver só com o seu mal. Longe do mundo e dos homens. Voltaria a galgar o alto Engadine de onde administraria na companhia da sua querida e orgulhosa dor o vasto e exclusivo império do seu EU, tanto mais robusto quanto mais sofrido.

Breuer sarado tinha de se ir embora. É quando se apercebe da íntima tristeza com que Nietzsche saudou a sua cura, e lembrando-se do pedido de ajuda, resolve fazer xeque mate ao mal do, agora, seu amigo. Sempre vencido nos diálogos mantidos com ele, não podia dispersar esta oportunidade única. Tal mostra de fragilidade seria a salvação dele. E sua também. Como clínico. Como amigo.

Se consigo Bertha foi a um tempo a origem da sua angústia, não teve dúvidas em eleger Lou Salomé como uma das grandes causadoras dos pesadelos, insônias e aflições de Nietzsche. Que finalmente se abre e denuncia um coração dilacerado, ao saber que aquela havia produzido, com ele Breuer, o mesmo comportamento insinuantemente provocador tal como, com ele, Nietzsche, que se julgava, no recesso do seu individualismo, senhor absoluto dos mimos de Lou Salomé.

Chamando então a si Freud e toda a sua ciência, a par de tudo o que com o filósofo aprendera, Breuer, impiedoso, perscruta aquele coração, libertando-o da solidão auto imposta, como sobrevivência num mundo imperfeito. Com a certeza e segurança da amizade entretecida na cumplicidade da dor, diluída pelo abraço que acede ao humano, demasiado humano. E que se torna menos mau sempre que um homem chora.

Editora: Ediouro
Pág. 407
Edição: 14ª
Autor: Irvin D. Yalom
Ano: 1992


Edson Moura

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Interpretação dos Sonhos" Freud

Freud e a interpretação do significado dos sonhos:

Foi no seu livro "A Interpretação dos Sonhos", publicado primeiramente em 1899 (mas datado 1900), que Sigmund Freud argumentou que a fundação do conteúdo dos sonhos é de satisfação de desejos, e que sua instigação é sempre encontrada em eventos do dia que o precedeu. Freud defendia que, no caso de uma criança muito nova, isso poderia facilmente ser visto, uma vez que os sonhos destas quase diretamente representavam a satisfação de desejos que despertavam no dia anterior. Porém, em adultos a situação é mais complicada. Neles os sonhos seriam sujeitos a distorções, com o sentido manifesto (a fachada) e o sentido latente (o significado) presente no inconsciente. Como resultado dessa distorção e disfarce, o significado real do sonho ficaria oculto: a pessoa não é mais capaz de reconhecer o significado verdadeiro do seu sonho.

Freud listou as operações de distorção que seriam aplicadas para reprimir que os desejos se formassem nos sonhos como recordáveis. Por causa dessas distorções, o conteúdo manifesto dos sonhos diferia tanto do sentido latente que poderia ser alcançado através da análise. Essas operações incluiriam:

* Condensação - O objeto do sonho suporta várias associações e idéias, desta forma os sonhos são breves e lacônicos em comparação com a riqueza dos pensamentos.

* Deslocamento - Um objeto do sonho de significado emocional é separado do seu objeto ou conteúdo real e ligado a um completamente diferente que não levante suspeitas para censura.

* Representação - O pensamento é traduzido em imagens visuais.

* Simbolismo - Um símbolo substitui uma ação, pessoa ou idéia.

A essas operações pode-se adicionar a "elaboração secundária", que é o resultado da tendência natural da pessoa dar algum tipo de sentido ou história ao que recordou do conteúdo manifesto no sonho.

Freud considerava que a experiência de pesadelos eram resultado de falhas na elaboração do sonho, de modo a não contradizer sua teoria de satisfação de desejos. Sonhos traumáticos (os quais meramente repetiam experiência traumática) eram admitidos como exceções à teoria