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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

"Questões acerca da morte" (1ª Parte, por um viés religioso)

A filosofia, ao contrário do que muitos imaginam, não deve ser complicada, ao invés disso, ela deve ser o mais objetiva possível, sem palavras difíceis que muita das vezes estão ali, presentes nos artigos filosóficos apenas para dar um ar de intelectualidade ao autor. Costumo escrever muito sobre morte, o que me rendeu um rótulo de pessimista, mórbido, desiludido ou decepcionado com a vida, ou seja, uma pessoa propensa ao suicídio. Pois bem, que pensem o que quiserem. Não me importo (muito) com esses detalhes. Enquanto vão me tachando de frustrado eu vou vivendo e sorvendo cada minuto da minha existência como se não fosse haver outros mais. 

Muitos dizem (eu inclusive) que a morte faz parte da vida, o que não soa muito correto se formos ser rigorosos com os termos. Ninguém que ainda esteja vivo, (eu, você que está lendo, todos nós) experimentou de fato o que é morrer. A morte é o fim de um processo orgânico, que ao cessar de pulsar como vida, se acaba, se extingue. Portanto, a morte faz parte do “além-vida”, a morte pertence apenas ao mundo dos mortos. O problema é que o mundo dos mortos faz parte do mundo dos vivos, seja no culto aos mortos, nos cemitérios, nos rituais fúnebres das tantas religiões, na poesia, na literatura, na saudade que fica ao perdermos um ente querido e na “esperança de um dia o encontrarmos novamente na eternidade”. É aqui que entra a Filosofia.

Se a morte não faz parte da vida, pelo menos ela deve fazer parte do pensamento dos que estão vivos. A consciência que nós “sapiens” temos da morte nos persegue e nos obriga a tomarmos uma posição, mesmo que esta seja fugir de sua lembrança inventando mil desculpas e sublimações. Mas já os que possuem fé, ou acreditam na continuação desta vida, concebem em suas cabeças, um paraíso ou um inferno, um nirvana, um renascer, ou seja, morrer de forma alguma é o fim para essas pessoas. Platão e Sócrates acreditavam nisso, portanto, filosofaram sobre a Vida e a Morte. Já Nietzsche e Sartre não acreditavam, mas também filosofaram. E se para Cícero, “Filosofar é aprender a morrer”, poderíamos reescrever esta frase e dizer: “Filosofar é aprender a viver”.

Todos os seres vivos morrem. Eu disse Todos! Esta é uma lei natural e universal a que ninguém escapa, logo, o ser humano, como animal, também morre. É certo que os avanços na medicina ou na engenharia genética andam prometendo certa “imortalidade” para em breve. Mas não sabemos quando, nem como e sequer, se atingiremos este sonho. Mas só o homem tem consciência de que vai morrer. E por este motivo, já antes de nossa morte, podemos senti-la, pensá-la, vivê-la, o que não deixa de ser um paradoxo. O fato é que, dessa consciência que temos de que vamos morrer, surge uma gama de possibilidades e consequências históricas, culturais, sociais e filosóficas sobre a significação humana da morte. Daí surgiu as grandes religiões, com a promessa de que o homem não morre para sempre, de que ele sobreviverá à morte física. Sejam eles os Cristãos, os Muçulmanos, os Judeus ou os Budistas.

Mas embora tantos prometam uma vida após a morte, a ressurreição, o renascer, o reencarnar-se, o nirvana, ainda persiste o problema de que cada ser humano terá que enfrentar sozinhos a “travessia com o barqueiro para o outro lado”. Mesmo com o consolo das crenças e das religiões, o medo de deixar a vida continua assombrando a humanidade, provocando calafrios, fugas, alienações, neuroses e orações. E ainda que as religiões prometam a salvação eterna, muitos de seus fiéis abarrotam as igrejas com seus corpos mortais adoecidos em busca de um milagre, curas físicas ou espirituais, prosperidade financeira, o retorno de um amor perdido, ou seja, a felicidade aqui e agora, o mais longe possível da famigerada morte. Ninguém que morrer, nem tampouco falar da morte... da sua morte. O medo da morte é um dos maiores incentivos para a atividade humana, atividade esta, em boa parte destinada a evitar a chegada da inevitável morte, buscando inutilmente vencê-la, enganando-se com a negação de que ela seja o destino final do homem.

Se olharmos com atenção para as diversas civilizações e povos da história da humanidade veremos que todos tiveram e têm uma relação ritual e simbólica com a presença da morte, embora, possamos encontrar sociedades que lidem de diferentes formas com a mesma. Desde que se criaram as religiões e os deuses, os rituais criados pelo homem nada mais são do que formas de se relacionarem, de “negociarem” com o sagrado, com o sobrenatural, o mistério divino, tendo como anseio galgarem uma vida que supostamente se estenderia para além desta. Assim o homem buscou, busca e continuará buscando por muito tempo ainda a imortalidade e o eterno. Foi assim que as civilizações antigas inventaram suas crenças absurdas, seus rituais grotescos (a começar pela feitiçaria).

Certamente os feiticeiros foram os primeiros a tentar controlar, pela magia, as forças, sejam elas do bem ou do mal, em benefício do próprio homem e suas necessidades de sobrevivência histórica ou para além dela. Depois deles vieram os sacerdotes, os profetas, os enviados por  Deus ou pelos deuses, tentando mostrar assim que, mesmo sem experimentar literalmente a morte era possível um prelúdio de como seria o mundo dos espíritos, de como os heróis mitológicos iam e vinham do reino dos mortos, vitoriosos, carregando a cabeça de seus inimigos, ou amarrando as serpentes infernais em cativeiros no submundo. Assim foram os deuses do Egito Antigo, Ísis, Osíris, Néftis, entre tantos outros. A crença da imortalidade da alma, que certamente inspirou a fé judaica, marcou toda a milenar cultura egípcia, cujas pirâmides que até hoje erguem-se imponentes nas areias do deserto do Saara, nada mais são do que túmulos de seus reis, guardando sarcófagos com suas múmias embalsamadas e cheias de tesouros, esperando a volta de suas almas do mundo dos mortos.

Na Grécia, os cultos a Orfeu e a Dionísio e os mistérios de Átis e de Adônis possuem a mesma essência, a saber, a morte e o renascimento. Por aí podemos avaliar que, enterrando ou cremando seus mortos, a humanidade sempre revelou e continua a revelar essa crença ou, como alguns gostam de chamar, fé, na eternidade da vida para além da morte.
 
Continua...

Edson Moura

Questões acerca da morte (2ª Parte, por um viés psicológico)


Diante da questão da morte, os filósofos não poderiam simplesmente ignorar sua importância. Muitos filósofos, no decorrer da história da Filosofia, dedicaram profundas reflexões sobre o assunto na tentativa de apaziguar suas próprias consciências, e dar sentido àquilo que parece uma fatalidade, um absurdo, um castigo. A seguir veremos alguns dos principais filósofos nessas reflexões. 

Segundo a tradição, um dos maiores filósofos foi Sócrates, embora nada tenha escrito e quase tudo que conhecemos acerca de seu trabalho fora escrito por seu discípulo Platão. Os últimos momentos da vida de seu mestre encontra-se narrado no diálogo de “Fédon” ou “Da Imortalidade da Alma”. Sócrates corajosamente aceita a sentença que seus pares lhe impuseram, negando-se a fugir como propunha seus discípulos, pois para Sócrates, obedecer as leis da cidade era uma questão de honra. Devemos nos lembrar que Sócrates também era político, uma espécie de deputado ou senador de Atenas.

Aceitando sua sentença de morte, Sócrates dá sua última “aula” aos discípulos, revelando o caráter moral de sua decisão, de coerência com o que havia dito e vivido como cidadão ateniense. Fala das virtudes (temperança, coragem, justiça) e convida seus discípulos a serem fiéis aos apelos de suas consciências, mesmo enfrentando tamanha injustiça. Diz Sócrates: “Se morrer é encontrar-se com os grandes da história de Atenas (como Péricles, pai da democracia), a morte então seria um prêmio para ele”. Impressionado com a vida e também com a morte de seu mestre, Platão revelará em praticamente todos os diálogos que escreveu, como  no “A defesa de Sócrates”, o quanto seus ensinamentos e coerência de vida eram fundamentais para construção de uma sociedade justa e de uma vida feliz.

Podemos também falar de Epicuro, nascido na cidade de Samos, tornou-se discípulo de Demócrito com apenas quatorze anos de idade. Depois de muitas idas e vindas, instala-se em Atenas onde funda sua escola filosófica para homens e mulheres, que, como não podia deixar de ser, foi alvo de fofocas escandalosas. Epicurismo ou Hedonismo, tem como princípio de sua doutrina, pregar que a felicidade humana deve se basear na vivência do prazer, o que não significa desregramento ou, imoralidade. Para ele, o prazer devia ser regido pela razão, pelo equilíbrio, ou seja, a justa medida de Aristóteles.

Epicuro ensina seus discípulos a não temer a morte, pois pior seria viver para sempre e pior, viver em desgraça, miséria ou dor. Antecipar o pensamento de morte não vale a pena, pois o morrer, em si, não faz parte da vida. Será apenas um momento que, de repente nos conduzirá para outros horizontes ou para o nada. Assim como dormimos todas as noites e não percebemos como isso acontece, assim será a morte. Portanto, o que vale na vida de verdade, é procurar viver bem, desfrutar o que há de bom, viver intensamente cada instante, e estar com os amigos.

Também Martin Heidegger, filósofo alemão, e um dos principais pensadores do século vinte, que escreveu obras como “O ser e o Tempo”, é tido como um pensador Existencialista (embora não tenha aceitado o adjetivo). Mas, ao se preocupar com um sentido mais profundo para a existência humana, ou com a questão metafísica do “ser aí”, e ao afirmar que “o homem é um ser para a morte”, Heidegger certamente se inscreve entre aqueles que tiveram uma preocupação comum, aos filósofos denominados existencialista, como Sartre.

O ser humano vive sua existência como projeto, com suas infinitas possibilidades de realização no futuro, mas somente uma poderá ser sua escolha, que nunca é definitiva. A todo momento a liberdade humana é chamada a se posicionar, a se ajustar, mas sabendo que a própria liberdade não é um dado pronto e acabado. A liberdade se faz a cada momento que se coloca, a cada ato, livre ou não. Todavia o homem sabe que há uma “situação-limite” colocada pela morte. E este é um fato do qual homem algum poderá escapar, fazendo surgir assim a angústia existencial e as tantas perguntas sobre o sentido de nossa existência.

“Por que, e para que viver, se tudo acabará com a morte?” Quem nunca se fez esta pergunta? Devemos nos lembrar que para Heidegger, não podemos contar com a saída da crença em vida eterna, ou seja, imortalidade da alma, possibilidade dado pelos filósofos metafísicos tradicionais como Platão, Descartes, ou Leibniz.

Diante da angústia perante a desagradabilíssima e inevitável experiência da morte, o que não significa medo psicológico, depressão ou pensamento mórbido sobre a morte, temos duas saídas apenas: Uma existência autêntica dos que assumem essa angústia e aceitam sua finitude, voltando-se para um viver crítico, responsável e quem sabe livre. Se esta é a única vida que tenho, cabe somente a mim vivê-la em plenitude, a construí-la com os outros no mundo, sem medo, sem amarras, sem escravidão e mesquinharias.

A outra posição que um ser humano pode tomar diante dos pensamentos aterradores acerca de sua morte é o do homem inautêntico, que foge da angústia da morte, que nega a sua realidade por meio de mil subterfúgios, refugiando-se na impessoalidade, alienação religiosa e massificação. E por negar a angústia da morte, acaba por negar-se a si mesmo e a autenticidade de sua vida.

Mas e os que ficam? Deixemos de lado um pouco os Filósofos, e falemos dos psicólogos que buscam uma explicação e até uma sistematização do luto para quem perde um ente querido. Os psicólogos, observam, na clínica, o aumento do volume dessa demanda significativa no vivenciar e expressar essa dor, e que experimenta sensações e emoções até então desconhecidas e inconcebíveis.

Para quem fica, o que lhe resta é conviver com a “presença da ausência” e cada um lidará de uma maneira diferente com este sentimento. Não é uma dor física, produzida pela estimulação de terminações nervosas específicas em sua recepção, mas a dor com sentido, com razão de ser e significados muito subjetivos, com sentimento de pesar, de aflição. Alguns primeiramente NEGARÃO a existência desta dor. Criarão estratagemas para lidar com ela, fingirão que não aconteceu, inventarão situações que proporcionem certa alienação da realidade da perda e geralmente não quererão falar sobre o assunto.

Então surge a RAIVA, a indignação, os questionamentos do “por quê comigo?”, o que eu fiz para merecer isso?”. Revoltar-se-á com Deus, com os outros e até consigo. Alguém é o culpado e precisa ser punido. Vai tentar BARGANHAR na sequência. Dirá certamente que “há males que vem para o bem”, que “o que não me mata me deixa mais forte” e nesta negociação consigo mesmo, dirá que se sair desta situação será uma pessoa melhor, amará mais, ouvirá mais, perdoará mais, acertará mais, e se importará menos com problemas pequenos.

Até aqui tudo parece bem, mas então vem a DEPRESSÃO. É agora que a pessoa se afasta para um mundo que é só seu, acaba por isolar-se dos demais, inclusive das pessoas que lhe querem ajudar. Mergulha na melancolia e definitivamente se vê totalmente impotente para lutar com esta dor. Agora arrasada, se entristece muito mais do que outrora. O mundo fica cinza, as flores perdem as cores, o canto dos pássaros não agradam mais, pelo contrário, a felicidade impressa no canto deles chega a incomodar, assim como a felicidade de qualquer outro ser. A raiva retorna, aliás, não há uma sequência lógica para esses sentimentos, hora aparece um, hora surgirá outro. A mente da pessoa mais parece um barril de pólvora prestes a explodir à menor faísca.

“Não há mal que dure cem anos”, já disse alguém não sei quem e não sei quando. Alguns...alguns repito, ACEITARÃO. Se a pessoa conseguiu vislumbrar uma luz no fim do túnel, e bravamente superou as fases mais atrozes de uma perda, ou de um luto mais especificamente, finalmente ela estará pronta para prosseguir sua vida. Não há mais desespero, não há mais raiva nem negação ou depressão, a dor agora já é quase imperceptível. Restou apenas uma saudade. O cheiro da pessoa que se foi, ficará em outras pessoas com as quais consequentemente cruzará na rua. Se não se desfez dos objetos do que se foi, as roupas ainda penduradas nos cabides trarão boas lembranças. Uma comida que ela gostava, uma canção que lembrará uma dança que aconteceu, e possivelmente lágrimas brotarão, e serão pesadas, difíceis de segurar, mas não serão lágrimas desesperadas, não serão lágrimas de dor, e sim de alegria. Alegria por poderem ter convivido com alguém tão especial.

Continua...

Edson Moura.

Questões acerca da morte (3ª Parte, por um viés científico)


Na Idade Média, nossos antepassados, com suas limitações de conhecimento e ainda com suas superstições, esta por sua vez, “empapada” do Cristianismo cada vez mais fortalecido, começaram a se preocupar, não mais  com o destino coletivo das pessoas de sua religião, e sim, com o destino de cada indivíduo em particular. Foi então que se estruturou a crença de “julgamento após a morte”, podendo o morto sofrer punições pelos pecados cometidos durante toda a vida.

Segundo a crença anterior, Jesus voltaria, conduziria os que creram até o Paraíso. Modificado então, para um “Dia do Juízo Final”, onde seriam separados os bons dos maus, cabendo aos maus a “Punição Eterna”. [...Então dirá aos que estiverem à sua direita: vinde benditos de meu pai, receberdes por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo... Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos... E estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna...]

É neste contexto que o conceito de purgatório se desenvolve dentro do catolicismo. Até então esta ideia não era estruturada como dogma, mas apenas como um elemento  procedente da crendice popular, muitas vezes associada à ideia de limbo (local onde as almas das crianças mortas sem batismo deveriam permanecer até a vinda definitiva de Cristo. O termo latino purgatorium (lugar de purificação) parece ter sido usado pela primeira vez no fim do século XIII, por Pierre Le Mangeur, em Paris.

No Concílio de Lyon, em 1274, o purgatório recebia uma primeira promulgação como dogma da Igreja católica, sendo definitivamente proclamado em 1439, no Concílio de Florença, que congregou Católicos romanos e ortodoxos Gregos.

Com o advento do purgatório, a ritualização da morte é modificada, no sentido de buscar o perdão para pecados cometidos em vida, procurando garantir um bom destino à alma que estivesse deixando o seu corpo mundano. Surge a possibilidade de interferir no “destino” do falecido, por meios das súplicas e indulgências dirigidas a Deus e aos santos, visando diminuir o tempo de expiação pelos pecados e facilitar a entrada do “morto” no Céu.

A morte vai tendo seus aspectos repulsivos mais explicados e valorizados. O corpo morto, frio e fedorento, passa a ser escondido. A imagem da morte vai se transformando, deixa de se “bela” e pública para ser “feia” e escondida, ou melhor dizendo, proibida. Os rituais que outrora acompanhavam a morte e o morrer, são agora esvaziados de sentido em uma maneira de evitar o sofrimento pela própria morte. A morte antes aceita com naturalidade, ocorrendo em meio à tranquilidade dos familiares, passa a ser temida. A morte natural passa a ser a morte por velhice, enquanto todas as outras maneiras de morrer sinalizam a possibilidade de um castigo divino.

Feliz ou infelizmente, com o crescimento do pensamento filosófico e científico dos séculos XV e XVI, testemunhamos nova elaboração da vivência da morte. Com o advento do Iluminismo, a morte passa a ser dissociada de seus aspectos religiosos e sagrados, adotando a racionalidade como elemento norteador. A morte passa a ser vista principalmente como um evento biológico, sobre o qual deve-se buscar um maior controle por meio da Ciência e da Razão. Com isso, a estruturação de hospitais, o desenvolvimento da medicina e a busca pelo prolongamento da vida ganham mais atenção.

A relação entre morte e hospital foi se estreitando ao longo dos séculos. Os hospitais tiveram sua finalidade alterada de acordo com cada época e lugar. Antes do advento da medicina científica e tecnológica, o morrer em hospitais era destinado às pessoas pobres ou indigentes, que não possuíam condições financeiras de serem tratadas em suas próprias residências, portanto se dirigiam aos hospitais em busca de recuperação de sua saúde, ou mesmo para morrerem.

Antes do século XVIII o hospital era uma instituição de assistência aos pobres, que visava unicamente sua separação e exclusão. Na visão geral, o principal personagem do hospital não era o doente que poderia ser curado, mas sim, o pobre que estava morrendo e deveria ser assistido material e espiritualmente. O hospital seria portanto, um “morredouro”, um lugar para se morrer. O paradigma vigente nessa época era o paradigma do “cuidar”.

Cuidava-se dos doentes, mas sem a pretensão de reintegrá-los à sociedade, e enquanto estivessem vivos no aguardo da morte. O ato de cuidar estava inteiramente ligado à religiosidade, tendo o sagrado uma função asseguradora: “Cuidava-se do corpo e da alma, de maneira a facilitar à alma a sua entrada nos céus.

Com o tempo, a vivência da morte passou a ser restrita aos hospitais, transformados em locais de cura e recuperação de doentes, distanciando-os do convívio familiar durante sua recuperação ou mesmo no processo de morrer. Atualmente, século XXI, os cuidados médicos e hospitalares se pautam no paradigma de “curar”. Não basta cuidar do doente. É preciso curá-lo a todo custo e combater a morte. O paradigma do curar facilmente torna-se prisioneiro do domínio tecnológico da Medicina moderna. “Se algo pode ser feito, logo deve ser feito, essa é a missão”. Também idolatra a vida física a alimenta a tendência de usar o poder da Medicina para prolongar a vida, mesmo em condições inaceitáveis.

A irreversibilidade é normalmente citada como um atributo da morte. Cientificamente, é impossível trazer de novo à vida um organismo morto, e se um organismo vive, é porque ainda não morreu anteriormente. Muitas pessoas não acreditam que a morte física é sempre e necessariamente irreversível, enquanto outras acreditam em ressurreição do espírito ou do corpo e outras ainda, têm esperança que futuros avanços científicos e tecnológicos possam trazê-las de volta à vida, utilizando técnicas ainda embrionárias, tais como a criogenia ou outros meios de ressuscitação ainda por descobrir. Acredito que a maioria de nós torça para que a ciência vença esta batalha tão árdua, independentemente de suas religiões.

Algumas pessoas não querem morrer e as desculpas são as mais variadas, agora, do ponto de vista biológico evolutivo (e neste ponto, a religião e a ciência que até poderiam “andar de mãos dadas”, acabam distanciando-se), morrer é algo “bom”, mas explico, bom partindo do pressuposto científico de que é necessário morrer para que a descendência com modificação faça sua “mágica”. Alguns biólogos acreditam que a função da morte é primariamente permitir a evolução.

Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que, a inabilidade para curar ou evitar a morte, constitui-se uma falha na Medicina moderna. A falácia dessa lógica é pensar que a responsabilidade de curar termina quando os tratamentos estão esgotados.

“Portanto, aconselho que aproveitem a vida, e a melhor maneira de fazer isto é pensando na morte...sua morte”

quarta-feira, 30 de março de 2016

Poucos vivem muito, e muitos vivem pouco


Por Edson Moura

Penso às vezes que estou vivendo. E para muitos, ou melhor, para a maioria, de fato é assim que se considera o viver. Mas será que é verdade? Estar com outras pessoas, caminhar pelas ruas abarrotadas de seres humanos, encher os pulmões de algo que muitos de nós nem sabe o que é, ou do que é composto, contar os passos nas calçadas evitando as lajotas de cor preta, será que isso é viver? Comer, beber, fumar, sorrir, chorar, brigar, sofrer, isso é viver? Ou será que é apenas existir? Sim, isso é existir, ou seja, fazer parte de algo, estar inserido na sociedade, ser aceito pelas diversas tribos de humanos, cada uma com suas particularidades. Tudo isso é apenas existir.

Viver é algo mais complicado. Em primeiro lugar, para se dizer que vive, ou que está vivendo, é preciso ter em mente, e de forma patente, a consciência de que tudo isso ira acabar um dia, que algo ou alguém está à espreita, esperando para nos levar não sei pra onde, para enfim descansarmos e não podermos mais dizermos conscientes: “Não vivo mais!”

Estou parado, num lugar qualquer desse imenso universo a pensar no porquê de estar aqui. Por que eu fui escolhido para existir numa história que não entendo como começou e muito menos como acabará? Estou neste exato momento tomando ciência de que estou vivendo, e não simplesmente existindo. Viver é saber que nada permanece. Viver é sentir um frio na barriga ao perceber o fim trágico que nos aguarda. E é nessas horas que entramos numa profunda mas passageira crise. Crise esta que ninguém percebe, e por um simples motivo, ora, todos estão muito ocupados existindo apenas.

Equipados de seus aparelhos celulares, distraídos em suas redes sociais que fazem tudo, menos socializá-los. Não se dão conta de nosso desespero momentâneo, do calor que sobe pelo peito e repousa em nossa face, agora suada. Um desespero que nem sei como explicar, mas você sabe. Sim você! Você que está lendo estas linhas sem saber por que. Talvez seja amigo do autor, e apenas não quis fazer a desfeita de não ler o que ele escreveu. Ou talvez você apenas queira saber qual foi a bobagem que ele resolveu escrever desta vez. Mas eu lhe digo: Se nunca passou por um desses momentos de angústia profunda, daquelas em que perece que caminhamos sobre uma fina camada de gelo e alguém está a levantar um machado para parti-lo, ah, eu posso afirmar...você apenas existiu até então.

Talvez você esteja firmemente apegado a uma ideologia que o afaste desses pensamentos sombrios, ou pior, você pode estar convicto de que este existir nem se compara ao outro que virá depois da morte. Um estoicismo exacerbado, que me causa náuseas. Uma promessa de algo que não podemos sequer testar antes de aceitarmos. Odeio aqueles que não vivem e creem veementemente que o faz. Não param um minuto por dia para refletir sobre si mesmos, sobre como surgiram ou como irão “des-surgir” um dia. Como chegará a hora em que nada mais terá tanta importância quanto mais alguns segundos de existência.

Um filme se passará em parcos segundos antes do fim. Promessas não cumpridas, amores não vividos, experiências não trocadas, beijos e abraços não dados, socos e ponta-pés que faltaram, comidas que não saborearam, perdões que não pronunciaram. Será tarde, muito tarde para voltar atrás. Essa senhora que veio buscá-lo, levará aquilo que chamou de vida junto com o que eu chamo de existência. Levará tudo que você tinha e tudo que pensou que teria.

Então me faço questionamentos e acabo por respondê-los sem perceber nessas horas – e você que já passou por isso também já deve ter se perguntado – algo parecido com: “Para que tanto esforço? Para que tantos sonhos e projetos? Para que ser bom e buscar um altruísmo que só se encontra quando escavamos no mais profundo de nosso ser? Poderia desistir agora mesmo de tudo, nada vale a pena, nada faz sentido, vou morrer mesmo. Nem sei se deveria estar aqui ainda.”

Pronto! Dou-lhe os parabéns!!! Você vive. Viver é acima de tudo temer a chegada da morte. Não falo de ter medo mas sim de sabermos que ela existe, que ela vive. Diferente de nos comportarmos como animais irracionais que não têm consciência de sua finitude. Que existem dia após dia sem tomar conhecimento de não haverá outro lugar para gastar o que acumulou, que não terá oportunidade de rever conceitos, experimentar o que negligenciou e acima de tudo, contemplar a vida no teor de seu significado.

Muitos acham que vivem, mas viver é uma das coisas mais raras do mundo, a maioria apenas existe. E sua existência realmente não faz sentido, e não deveria. Viver sim faz sentido, pois escolhemos dar-lhe significado. Optamos por viver dignamente o que parecia apenas um existir sem sentido, sem motivo, sem futuro. É neste exato momento que a crise existencial se vai. Se pudéssemos nesse momento abraçaríamos árvores, beijaríamos estranhos, ligaríamos para as pessoas que amamos e diríamos que a amamos com toas as letras que esta palavra comporta. Pensaríamos em escrever ou melhor, descrever essa alegria que se apodera de nossa alma ao percebermos que estamos vivos e melhor ainda, estamos vivendo...nada mais que isso...vivendo apenas.

Edson Moura

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lealdade

Por que são assim as pessoas? E esta pergunta não é retórica. Gostaria mesmo der ter a resposta. Num mundo tão densamente habitado, tantas singularidades entre cada um de seus mais de sete bilhões de moradores, e mesmo assim, plural em outros pontos. Talvez plural não seja nem o termo correto, diria que é mesmo uma unanimidade. 
 

Insistimos em tentar mudar, ou mesmo moldarmos as pessoas que nos circundam, mas quando achamos que estamos tendo sucesso na empreitada, um balde da mais fria água nos é jogado ao corpo nu e quente, exacerbando a sensação de dor, aquela dor que nos dá vontade de gritar os mais inapropriados palavrões, como se só isso bastasse para amenizar o sofrimento.

Quando foi que a lealdade deixou de ser importante? Outra pergunta que ficará sem resposta. Ao que me parece, o homem não abandonou seu estado de natureza, e contínua acreditando que não se deve acreditar no outro, que a melhor defesa é sempre o ataque prévio. Não estou falando de guerra bélica, mas sim, uma guerra que se trava constantemente nos recônditos de cada um de nós. Não sou diferente, por mais que reflita a respeito do assunto.

A decepção com o outro ficou, creio eu, cicatrizada em nosso DNA por milhares, para não dizer milhões de anos, e assim ficará, sempre, como uma lembrança inconsciente de que não devemos baixar a guarda nunca. Há mal nisto? Talvez sim, talvez não, a tragédia é que por mais que nos protejamos, a dor virá inexoravelmente, e pegará de jeito até o melhor e mais preparado de todos os lutadores.

É tudo uma questão de adaptação aos tempos modernos, aceitação de um mundo extremamente competitivo, onde aquele que puder oferecer mais será o escolhido em detrimento de um outro que não se dispôs a dar o máximo do máximo de si. E o perdedor contemplará a vitória de seu adversário talvez vislumbrando um futuro onde o campeão também será substituído por um outro melhor. Alto engano? Talvez, mas faz cessar parcela ínfima da dor.

Lealdade existe? Não sei! Pelo que acabei de escrever acima, depreende-se que não. Aquela lealdade que fez com que pessoas morressem uns pelos outros. Uma fidelidade de um tempo em que não era necessário exigir a cabeça à espada do algoz, simplesmente ela era oferecida. Mas será que era lealdade ao outro ou à si mesmo e suas convicções filosóficas ou religiosas? Tantas perguntas faço, e sem respostas continuo.

É provável que seja ingênuo, me comportando como uma criança que não cansa de perguntar porque realmente não sabe a resposta. E é isso mesmo! Eu não sei responder às minhas próprias questões. Isto é filosofar? Acho que sim. Filosofar é viver, e viver não tem sido muito fácil para quem pensa, e sofre por não entender as coisas que gente grande não quer explicar. Talvez porque não saibam também.

Já disseram “eu sei que nada sei”, mas sabia sim, e muito, a verdade é que não queria ver ou não queria que notassem que sabia. Eu ainda não desisti de confiar nos outros, mesmo sabendo que são eles o inferno que habita em nós, e certamente é por saber disso que não desistirei de encontrar respostas para as perguntas que faço hoje, agora.

Quero muito o conforto de um aliado que morra comigo numa luta que nem seja nossa, ou seja apenas nossa. Quando procuro nas expressões, na linguagem corporal, ou facial uma pessoa que esteja disposta a pensar como eu penso, algo me manda parar em frente um espelho a admirar meu achado, o reflexo de um rosto que coadune das minhas ideias e das minhas expectativas para um futuro tão incerto. Nem sempre gosto do que vejo.

Apenas sei que esta pessoa ali, parada em minha frente, nunca traiu a si mesmo, nunca foi contra sua consciência, por achar que não era saudável fazê-lo. Esta pessoa vê o mundo pelas mesmas lentes que eu vejo. E o melhor, há uma reciprocidade entre eles, pois ambos sofrem as mesmas dores e têm as mesmas perguntas….todas sem resposta alguma.

Edson Moura

sexta-feira, 21 de março de 2014

"Não vim ao mundo só"





Não vim ao mundo só
Nasci grudado ao meu irmão
Cresci segurando sua mão
Não vim ao mundo só.

Nunca nos separamos
Apenas nos afastávamos
Mas de longe nos olhávamos
Não vim ao mundo só.

Se chorava ele estava ali
Como sombra ao meu lado
Ele sempre fora o culpado
Pois nunca nos separamos

Sempre quis que ele partisse
Para poder ser mais feliz
No fundo acho que nem eu quis
Já que não vim ao mundo só.

Hoje não posso despachá-lo
O carrego sobre os ombros
Como um fardo sobre o lombo
Atado por arames de aço

Fui parido com meu irmão
Aceitei-o a muito custo
E para não ser injusto
Hoje o quero ao meu lado

Dominei-o já na velhice
Ignorá-lo é engano ledo
Pois não vim ao mundo só
Nascemos eu e o medo.

Edson Moura

quarta-feira, 10 de julho de 2013

"Inveja da lágrima alheia"






Sinto inveja dos que choram. Uma inveja que me atormenta à medida em que vou envelhecendo e vejo que as lágrimas não mais se apresentam. Nem olhos lacrimejantes, nem coração apertado, nem soluços contidos... Nada disso. Um ermo e solitário deserto. Um deserto árido é o que sinto que sou. Mas, mesmo nos desertos, ainda que em porções ínfimas, as lágrimas da noite se fazem presente, umedecendo a areia e deixando um orvalho rico para os seres que por lá vagueiam. Tenho inveja do deserto.

Lembro-me da última vez em que chorei. E como foi bom. Na verdade foi uma das poucas vezes que chorei, depois de adulto. Malas prontas, violão e livros guardados, meu irmão com o carro parado à porta, esperando que eu me despedisse dos meus filhos. Era a separação. Já dentro do carro, ao ver de relance meu filho no portão, me olhando, não sei se com tristeza ou indiferença, pois tinha apenas 3 anos, elas vieram. Vieram com tamanha força que por mais que me esforçasse, não consegui contê-las. Chorei, e chorei de soluçar. Meu irmão nada disse, apenas respeitou esse meu momento.

Como foi bom. Chorar não era ruim naquele momento. Me revelou o tamanho do amor que eu tinha pelos meus filhos, e como seria difícil a vida longe deles. Foi um choro efêmero. Rapidamente substituído por um ódio com as mesmas dimensões do amor. Odiei minha esposa. Odiei a mim mesmo me julgando culpado pelo rompimento. Hoje sei que não tive culpa. Mas, queria ter. Para quem sabe, poder chorar de arrependimento.

Recordando agora daquele fatídico dia, não consigo fazer brotar uma lágrima sequer. Remoendo e remoendo as lembranças, vejo um solo estéril e totalmente sem possibilidades de gerar vida. Para onde forma minhas lágrimas? Se soubesse que me fariam tanta falta, as teria economizado ainda mais. Pergunto-me se a total ausência delas, não é a constatação que que não valorizo o que perco hoje. Acho que estou tentando me enganar. O que aconteceu foi que a vida me tornou duro demais, ou melhor, eu me tornei assim.

Ainda ontem vi uma cena que me desmontou por completo. Meu filho mais velho, Jonas, ao me ver saindo com o mais novo, Cauã, para levá-lo à casa de sua mãe, após uma semana de férias comigo, veio correndo atrás de mim, e tocou em minha blusa, com os olhos cheios de tristeza e lágrimas e diz olhando para o irmão: "nem se despediu de mim né?". Senti inveja daquelas lágrimas que provavelmente correram pelo seu rosto jovem logo depois do abraço. Aquilo me deixou feliz, por saber que meu filho ainda não padece do mesmo mal que eu.

Sofrer deveria ser obrigatório para alguns homens. Mas sofrer mesmo! Aquele sofrimento que faz desabar qualquer gigante. Que faz a mais dura rocha amolecer. Isso não quer dizer que não esteja sofrendo. Sofro por não sofrer o tanto que gostaria. Sofro por não chorar, e lavar minha suposta alma, e purificar meu suposto espírito. Sofro o sofrimento maior do homem. Aquele que ninguém percebe. Só nós mesmos.

Filósofo cético, Edson Moura