Por: Edson Moura
Quando
a escuridão se dissipou, uma luz intensa ofuscou meus olhos. Jamais
pensei que houvesse tamanha claridade vinda do Sol. Ele estava com um
brilho diferente; poderia até afirmar que estava mais próximo da Terra,
mas não estava mais quente — pelo contrário, a sensação térmica era
agradabilíssima.
Finalmente
comecei a lembrar, de forma fragmentada, da noite anterior. Eu estava
esperando um ônibus no ponto da Av. Rebouças quando, de repente, um
automóvel desgovernado veio em minha direção. Lembro-me de que não tive
reação nenhuma; meus músculos se enrijeceram para esperar a colisão
daquele monstro de ferro e aço contra meu frágil corpo de carne e ossos.
Meu Deus! Agora entendo! Eu morri! EU MORRI!!
—
Acorde, moço! Você não deveria estar tendo pesadelos! Sua memória
deveria ter sido apagada quando veio para cá. Desde que chegou, todos os
dias você tem sonhos com suas lembranças de uma vida passada. Aliás,
você não deveria nem dormir aqui... você deve aproveitar a Glória que
resplandece do trono branco.
—
Você já me disse isso, Senhor, mas alguma coisa saiu errada no meu
caso. Já estou por aqui há quase 10.000 anos, e essas lembranças me
atormentam.
Eu
me lembro da minha vida lá embaixo: dos meus filhos, minha esposa, meus
amigos... e sinto falta de tudo isso. Ainda ontem mesmo, eu passei por
um rapaz que, tenho certeza, era meu filho; falei com ele, mas ele nem
me respondeu. Meu coração bate desesperado quando vejo passar por mim
minha esposa, e ela nem sabe quem sou.
Todos
por aqui vivem em estado de êxtase o tempo todo; parecem até zumbis.
Ninguém por aqui chora. Ah, como era bom chorar! Sentir aquelas lágrimas
quentes correndo pelo meu rosto, sofrendo de amor ou até mesmo chorando
de alegria por pegar no colo, pela primeira vez, minha filha ao nascer.
Este
lugar não é bem aquilo que me diziam na igreja. Tudo se torna chato com
o passar do tempo — e bota tempo nisso. E quando penso que será pela
eternidade, não tenho mais vontade de fazer nada.
—
Meu filho, este é o céu! Todos os seus irmãos estão aqui. O fato de
eles não o reconhecerem é porque receberam um novo corpo e novas mentes.
Tudo aqui gira em torno de meu Pai; este era o grande plano d’Ele desde
a fundação do mundo. Aqui não se casa, aqui não existem pensamentos
maus, pensamentos sensuais, desejos carnais ou quaisquer outros desejos e
sensações que vocês sentiam lá embaixo. Tem que ser deste jeito, pois é
a vontade de meu Pai. Já tentamos consertar o erro que cometemos no seu
caso, mas, de alguma forma, não conseguimos deletar suas lembranças.
Elas fazem parte de seu Ser. Talvez seja porque você as viveu com muita
intensidade; você levou ao pé da letra quando eu disse: “Vim para que
tenham vida, e vida com abundância”.
—
Mas, Senhor, o grande segredo da vida é saber que um dia ela irá se
acabar; por isso vivi de forma tão intensa. Eu vivia cada dia como se
fosse o último. Eu aproveitava os detalhes da natureza para não deixar
passar nada despercebido. Quantas vezes eu não ficava olhando as
borboletas a voar, sabendo eu que suas vidas seriam tão efêmeras? Eram
flores com asas que enfeitavam nosso planeta. Quantas vezes eu saboreei
um pedaço de picanha, mastigando-o bem devagar, só para sentir o gosto
da carne descendo até meu estômago? E quando eu saía correndo do
trabalho e chegava em casa depois de ficar em pé quase três horas num
ônibus lotado, só para poder brincar um pouco mais com meus filhos? E eu
só fazia isso porque sabia que o tempo passava rápido; logo mais eles
cresceriam e deixariam as brincadeiras. Mas aqui não! Aqui tudo perdeu o
sabor, o prazer, pois sei que o tempo não tem a menor importância. Para
os outros que estão aqui, tanto faz, porque eles não têm memória; mas
para mim, que me lembro de tudo, é horrível! Sem dizer que nos é tirado
aqui um dos maiores prazeres que tínhamos lá na “vida”: o sexo — ou
melhor dizendo, o amor. Quando fazíamos amor, era algo fantástico.
Esquecíamos todos os problemas e nos entregávamos ao prazer. E o melhor
disso tudo é que, quando chegávamos ao clímax, não durava mais que 15
segundos, mas eram os melhores 15 segundos do dia.
—
Filho, eu entendo tudo o que você está me dizendo e até já falei com
meu Pai. Ele me disse que só existe uma maneira de corrigir este
problema, mas não sei se você vai aceitar as condições. Quer que eu lhe
fale ou prefere ignorar tudo e viver a eternidade aqui? Veja bem, estou
falando de vida ETERNA!
— Faço qualquer coisa para sentir de novo as sensações que outrora senti!
—
Pois bem! Depois não vá se arrepender. A proposta é a seguinte: Ele tem
o poder de lhe mandar de volta exatamente para o mesmo momento em que
você foi tirado de lá. Você viverá mais 50 anos e depois morrerá. Não
terá direito à vida eterna. Será aniquilado e sua alma e espírito
voltarão para meu Pai. Ainda quer voltar para a vida, filho?
—
Senhor meu, ainda que eu só tivesse mais dois dias lá na Terra, mesmo
assim eu aceitaria esta proposta. Pois valerá muito mais a pena olhar
nos olhos de pessoas que conhecia e dizer-lhes que as amo, e que nada no
universo é mais prazeroso do que estar ao lado de quem amamos. Quero
dizer-lhes também que vivam a vida com alegria, pois ela passa, e depois
o que vem é o vazio eterno. Prefiro não viver eternamente a viver e não
poder reconhecer as pessoas que viveram comigo. Não quero passar por
amigos como Márcio, Carlos, Gresder, Leví, Eduardo, Wagner, Jair e
tantos outros que conviveram comigo e não me lembrar deles... isso seria
triste. Quero voltar e, certamente, viverei ainda mais intensamente
esta nova vida.
— Que assim seja, então, meu filho!
Que
Deus nos permita lembrar e nunca esquecer que fomos humanos, que
amamos, que sofremos, que choramos... mas, acima de tudo, que vivemos.




