segunda-feira, 29 de março de 2010

Deus (im)-potente (não) é (oni)-potente! (?)



Como já tratei em outras postagens anteriores a esta, sobre a onisciência e soberania de Deus, quero dar o último e mais perigoso passo, reconhecendo o sofisma e axioma que enfrentarei, abordando a temática mais delicada de todos os atributos divinos.

Inicio com um dilema proposto pelo filosofo Epicuro (341 a.C a 271 a.C):
“Se Deus existe, ele é todo poderoso e é bom, pois não fosse todo-poderoso, não seria Deus, e não fosse bom, não seria digno de ser Deus. Mas se Deus é todo-poderoso e bom, então como explicar tanto sofrimento no mundo? Caso Deus seja todo-poderoso, então ele pode evitar o sofrimento, e se não o faz, é porque não é bom, e nesse caso, não é digno de ser Deus. Mas caso seja bom e queira evitar o sofrimento, e não o faz porque não consegue, então ele não é todo-poderoso, e nesse caso, também não é Deus”.

Diante do trágico tsunami, Leonardo Boff disse também algo muito parecido: “Se Deus é onipotente, pode tudo. Se pode tudo porque não evitou o maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não é onipotente ou não é bom”.

Até mesmo o grande Papa não escapou deste dilema universal, em sua visita ao campo de concentração de Treblinka perguntou: "Onde estava Deus quando esse horror aconteceu?"

Depois do atentado terrorista ao World Trade Center o New York Times publicou um artigo com essa mesma pergunta: “Onde estava Deus? Se estava lá, por que deixou acontecer?”.

Longe de mim propor uma solução fácil, e até mesmo uma solução para aquilo que os teólogos chamam na teologia de teodiceia, temática esta que é considerados por todos, o maior de todos os problemas pensantes, que filósofos, teólogos, sociólogos e estudiosos tentaram e tentam decifrar e não conseguiram, e, talvez nunca consigam, não pelo menos de modo satisfatório.

Mas para tentar responder este dilema, não me apoiarem em chavões, em respostas simplistas e decoradas, antes tentarem expor o que intui o meu coração, de um modo bem simples, porém verdadeiro.

Inicio com a base que sustentará meu argumento afirmando: Deus não é onipotente!
Alias, o que é ser onipotente para seres impotentes?

A questão toda é que qualificaram deus, colocaram nele atributos humanos, elevando à máxima potencia de perfeição idealizada, daí terem surgidos adjetivos tais como; onisciência, onipresença, soberania e onipotência.
A teologia clássica, não o bastante terem atribuído a deus, adjetivos humanos, ainda projetaram em deus uma imagem de super-homem, advinda da filosofia grega, que concebia os seus deuses como que perfeitos.


Mas tanto no judaísmo, que Deus é visto como passional, que Se envolve com os seres humanos, mostrando sentimentos, até em Cristo que é para mim o grande símbolo de Deus, é visto sendo impotente, pois assim como os homens, Ele sofre e chora pela dor que machucaram o seu coração.

Parto da própria cosmovisão Cristã, para anular a concepção de onipotência tradicional de Deus. Deus não pode tudo, como possibilidade e como poder, pois já no ato da criação, este mesmo Deus se esvazia, se retira, dá espaço para o homem conviver com Ele e sem Ele.

Mas é na crucificação de Cristo que vemos a sua total impotência, quando no momento de grande dor de seu filho, Ele não o livra, não porque não quer, mas porque não pode.

A partir do momento que Deus cria o ser humano, e dá liberdade, Ele impõe sobre Si limites, não sendo mais soberano, pois o mundo esta agora na mão do homem que ele criou.

Não conhece o futuro porque este ainda não existe, podendo fazer tudo que está intrinsecamente ligado ao seu caráter de poder fazer, sendo poderoso, porém limitado.

Assim resolvo para minha fé o grande paradoxo, pois somente assim deus não seria culpado pelo sofrimento no mundo, sendo porque o homem é livre e deus não intervém, sendo na natureza que é imprevisível visto Ele não conhecer o futuro, seja pela dor do sofrimento e miséria no mundo, não podendo resolver tudo, interpela o homem na construção para colocar ordem no caos, sendo o homem o grande responsável.

Ou é assim, na fraqueza de deus, ou é no não acreditar em sua existência, ou até mesmo em sua impessoalidade deistica que conforta o meu coração triste e abatido por tantos males no mundo, e pelo silencio e não interferência Dele.

Deus esta com os que sofrem, sofrendo junto, e nunca sendo o carrasco e causador do mal.
Em sua próxima dor e choro, Deus vai estar lá, não como potencia, mas com sua frágil e marcante presença, chorando com seu imenso amor.

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.


Marcio Alves

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Bíblia realmente quer dizer isso?

Ou será que nós de forma “covarde’, tentamos associar aquilo que fora dito a mais de 3.000 anos, aos nossos dias? É desesperador ver a “ginástica” feita hoje por alguns pregadores para aplicar em nossas vidas, preceitos Mosaicos...e totalmente fora da realidade na qual vivemos...tanto política...moral...como sócio-cultural.

Um tema teológico muito característico no livro de Deuteronômio é o da retribuição: bênçãos para a obediência, punição para o declínio moral e espiritual. A ideologia da retribuição divina pelo pecado é abalada, por incrível que pareça, nos próprios profetas. A interpretação teológica feita pelos profetas da história de Israel, em grande parte baseada no conjunto de ideias do livro de Deuteronômio, utiliza idéia de retribuição divina para explicar o sofrimento de Israel e de Judá.

“No entanto acredito que essa teoria foi criada para se adaptar aos fatos por meio do uso habilidoso da retórica. A retórica profética é criada para fazer as contingências da história humana parecerem necessidades divinas”. O propósito dos profetas não é apenas avisar o povo sobre o desastre eminente...até porque isso poderia ser determinado pela simples observação da situação política, mas eles queriam sim, fornecer uma justificativa teológica para o exílio de Israel. O dom deles era o de contar a história de tal forma que a queda de Israel pareça inevitável, tendo como pressuposto o caráter de Deus e a corrupção espiritual do povo. Não podemos nos deixar levar pela força da retórica dos escritores bíblicos.

O fato de até mesmo , e arrisco dizer...PRINCIPALMENTE leitores modernos da Bíblia estarem inclinados a falar como se isso fosse óbvio, representa um tributo à habilidade retórica dos profetas clássicos.

O que sobra do texto bíblico depois de sua desconstrução? A resposta é simples:

Sua retórica...seu poder de persuadir além dos limites do raciocínio puro...sua capacidade de provocar seus leitores para que desejem seu sucesso até mesmo além de seu merecimento. E desta forma, a geração de crentes “moderna”, está cada vez mais presa àquilo que “está escrito”....mas esquecem-se que estas mesmas profecias antigas, ainda são usadas hoje para manipular os mais indoutos, angariando assim, mais e mais ovelhas, prontas para serem “tosquiadas” (quem lê entenda), bem diferente do caráter nobre com que os antigos profetas também manipulavam as escrituras.

Devemos ler as Escrituras, não para interpretar o mundo de maneira diferente, mas sim para mudá-lo, e até mesmo mudar-nos. O nosso ponto de partida para a interpretação da bíblica deve ser a situação dos pobres e dos oprimidos. Aquilo que a Bíblia significa parece diferente quando lemos no contexto do gueto, e não da universidade. A Bíblia na perspectiva dos pobres, favorece a aplicação...e não da explanação.

Se a Bíblia representa de fato a ideologia divina, ela não precisa ser considerada opressiva ou contrária à ética. Essa confusão não é inocente, pois é o meio pelo qual os poderosos (Clero) trafegam para impor seus sistemas de valores sobre os outros. A ideologia legitima o controle da classe dominante fazendo com que suas ideias e valores pareçam naturais, justos e universais. Assim, uma maneira de desfazer a Bíblia é expor suas ideias como historicamente condicionadas pelas lutas sociopolíticas do passado. Na pratica, a distinção entre USAR e INTERPRETAR a Bíblia é com freqüência difícil de ser traçada. Ainda assim a distinção parece fundamental. Por isso nos libertamos das amarras e optamos por pensar fora da gaiola...e acreditem...estou mais feliz agora que não vejo mais as Escrituras com os olhos da emoção e sim com os olhos da razão.

Edson Moura

domingo, 21 de março de 2010

Deus assassinou o seu filho?



Por: Marcio Alves


Durante milênios foi propagandeado e bastante difundido, sendo o alicerce estrutural que compõe todo o Cristianismo, a medula óssea do evangelho, o pilar de toda teologia que é embasada no Cristocentrismo da crucificação de Jesus como um ato de Deus para abrandar a sua ira divina, redimindo assim toda raça humana.

Durante muito tempo propus a pensar sobre isto, cheguei até uma vez perguntar ao meu pastor, dizendo a ele que não fazia sentido algum a morte expiatória de Cristo, ao que ele me respondeu: “Se você disser isto para a igreja, é bem capaz de chamarem a policia para te prenderem”.

Mas este alerta me serviu de mola propulsora que instigou-me a continuar na peregrinação do repensar os dogmas pétreos considerados inquestionáveis pela homogeneização da Cristandade.

Inclusive acredito que o que leva os crentes a não pensarem em determinados assuntos, preferindo a comodidade ilusória enfadonha da repetição, ao invés de questionarem refletindo, e ficarem profundamente ofendidos por outros pensarem nestas questões – digamos – “proibidas”, é o medo de sua mais intima crença não ser verdadeira como se acreditou, contemplando as mesmas ruindo diante de uma simples pergunta.

Pois permita a você mesmo, ao menos uma vez, duvidar questionando a veracidade da crença na crucificação, como ato de justiça divina, pois se a cruz é algo extremamente cruel e mal, como Deus-Pai sendo um Deus de Amor, partindo da premissa da revelação em e por Jesus, mataria seu único filho por causa de sua ira, em pró de uma Justiça divina?

Deus usa o mal para o bem, é isto? Deus é um sadista, que gosta de promover sua glória com o sofrimento dos outros? Desta forma, Cristo teria morrido para aplacar mesmo a ira de Deus?

Deus para ficar de “bem” com a humanidade precisava derramar o sangue de um inocente, e mais ainda, do seu próprio filho?
O Deus-pai de Jesus Cristo é um Deus-vampiro que se alimenta e se acalma com sangue inocente de vitimas?

Pois, por mais que tentamos suavizar tal impacto, a cruz foi um crime hediondo, como pode Deus-pai de Jesus, compactuar com tamanha maldade?

Deus é um deus ao estilo dos deuses pagãos, que precisa fazer sacrifícios de animais, derramando sangue, pois o sangue dos mesmos aplaca a sua ira? No caso de Jesus, derramou sangue do seu inocente filho, para aplacar a sua própria ira contra a humanidade?

E mais ainda, se Deus tinha outros meios para salvar a humanidade, por que escolheu justamente matar o seu único e amado filho?

Se realmente foi Deus quem matou o seu filho, podia e tinha outros meios, preferiu logo esse horror, concluímos, ou Deus é um grande assassino sádico, ou é um ser desprovido de inteligência, porque podia se utilizar de outros recursos.

Ou então, Deus não tinha alternativa mesmo, e, portanto teve que matar o seu filho, mas isto, também tem a sua implicação, pois se Ele não podia salvar a humanidade, a não ser através do sacrifício de seu filho, segue-se que Ele não tem todo o poder?

Todo este dilema problemático termina, quando observamos, que tal doutrina da expiação nunca se encontrou na boca de Jesus tal propósito escuso do Pai, embora ele já de antemão previsse tal acontecimento, nunca disse que se tratava de uma conspiração divina envolvendo sua crucificação.

Foi Paulo quem mais elaborou esta concepção ao interpretar a posteriori o sacrifício de Cristo fazendo uma ponte com os rituais de sacrifícios de animais no velho testamento, como uma forma de aplacar a ira de Deus.

O maior problema hoje, é que os cristãos deram e dão mais créditos a Paulo do que a Jesus, interpretando este último pelo primeiro, ao invés de ser ao contrario, inclusive, interpretam também os evangelhos a luz do apocalipse, o que torna a bíblia um livro sanguinolento.

A morte de Cristo foi um escândalo, o maior dos crimes hediondos da Historia humana já cometida com tamanha perversidade, mas não foi e nem é compactuada por Deus-Pai.

Não foi Deus quem assassinou o seu filho!
Mas antes, a perversão e maldade humana, que praticou tal ato diabólico.

Pois como afirma Leonardo Boff: “O homem pode destruir a terra por diversas vezes, mas ainda assim a maior maldade não seria esta, pois sua maior maldade ele cometeu matando o Criador na cruz”.

Aprova do amor de Deus encontra sua gênese na encarnação de Cristo, a sua morte é a prova da maldade humana, mas a sua ressurreição é a prova incontestável da resposta de Deus para a maldade humana.

Ou seja, Deus não responde o mal com mais mal, mas com a vida, pois Deus é vida e a favor da vida, não da morte.

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

terça-feira, 16 de março de 2010

"Arrebatados"

Por: Edson Moura

Ensinaram-me que um dia, todos os “crentes fieis” seriam arrebatados desta Terra, para enfim, habitar nos céus com Deus. Não sei bem ao certo, quando foi que deixei de crer nesta fábula (se é que um dia acreditei de verdade). Mas hoje muitos esperam ansiosos por este grande evento....mas que mentira!


Qualquer cristão honesto, sabe que na verdade, não quer ser “arrebatado”...pelo menos não antes de viver um grande amor, de desfrutar dos lucros de seu trabalho, de andar pelo menos 10.000 km com seu carro novo...entre outras maravilhas que só se encontra aqui na Terra (vida).

“Eu não quero ser arrebatado nunca!” Pois Jesus, o filho de Deus, entregou-se para que vivêssemos aqui, uma vida com abundância. Abundância de sentimentos, intensidade nos relacionamentos, prazeres inerentes ao homem que arrisco dizer: “Não se comparam com as coisas mais surpreendentes que nos fora reservado na “vida eterna”.

Tribulação? Sempre teremos. Os apóstolos passaram pela tribulação e não foram arrebatados dela, pelo contrário, tiveram mortes horríveis.

No século XXI, era da informática, revolução científica e tecnológica, fica mais difícil ainda acreditar que haverá de fato essa tal “tribulação”. É claro, os pastores sempre irão bater nesta tecla, pois é necessário que os fieis tenham medo, vivam apreensivos, aguardando um suposto arrebatamento ou segunda vinda de Cristo.

Pânico incutido na mente dos mais tímidos...este é o meu pensamento a respeito do que se “prega” hoje sobre escatologia.

Não tenho medo do “inferno”, assim como não vivo almejando o céu. Talvez..e eu disse TALVEZ, eu seja surpreendido, mas não acho que fará muita diferença, pois creio em Deus, e o amo pelo que Ele é, ou seja, criador. Creio em Jesus pelo que ele foi...a saber...filho de Deus, totalmente esvaziado, habitando entre os homens...como HOMEM, ensinando preceitos que transcendem os milênios.

Não vejo implicações no que diz respeito a se crer assim, afinal de contas, fujo das barganhas com Deus...nego-me a ser o “escolhido do Senhor” num mundo Caótico e escasso de utopias. Não oro pedindo bênçãos, nem o sirvo para receber galardão. Deus é amor, e quando me dei conta deste amor, percebi que era livre. Me considero um escravo alforriado que ouve seu senhor dizendo: Vá! Você é livre agora!

Então eu digo: Não! Quero continuar servindo (crendo), pois sou grato pelo que me fez!

Mas em contra partida, a maioria (vejam que não estou generalizando) pensa assim: Deus diz...venha filho, sirva-me por favor. Terá tudo o que quiser! Sararei sua terra...abençoarei sua prole...nenhum mal chegará a sua tenda...serás arrebatado enquanto os outros serão deixados para sofrer! No que o fiel responde:

Tá bom Senhor...mas olha, vou cobrar tudo que me prometera hein?!

Quero comer o melhor desta terra, quero ser cabeça e não calda, afinal, sou filho do “Senhor dos exércitos” e “tudo posso naquele que me fortalece!” Não aceito nada menos que o melhor!

Lamentável!!!

Criticam a mim e ao Marcio pelo que escrevemos...e pela forma como cremos. Mas na verdade não enxergam que nosso relacionamento como Deus é:
“Sem barganhas”